sábado, 14 de março de 2026

16/03/2026- Segunda-feira Da IV Semana Da Quaresma

CRER EM JESUS E NA SUA PALAVRA SIGNIFICA VIVER PARA SEMPRE

Segunda-Feira da IV Semana da Quaresma

I Leitura: Is 65,17-21

Assim fala o Senhor: 17 Eis que eu criarei novos céus e nova terra, coisas passadas serão esquecidas, não voltarão mais à memória. 18 Ao contrário, haverá alegria e exultação sem fim em razão das coisas que eu vou criar; farei de Jerusalém a cidade da exultação e um povo cheio de alegria. 19 Eu também exulto com Jerusalém e alegro-me com o meu povo; ali nunca mais se ouvirá a voz do pranto e o grito de dor. 20 Ali não haverá crianças condenadas a poucos dias de vida nem anciãos que não completem seus dias. Será considerado jovem quem morrer aos cem anos; e quem não alcançar cem anos, passará por maldito. 21 Construirão casas para nelas morar, plantarão vinhas para comer seus frutos.

Evangelho: Jo 4,43-54

Naquele tempo, 43 Jesus partiu da Samaria para a Galileia. 44 O próprio Jesus tinha declarado, que um profeta não é honrado na sua própria terra. 45 Quando então chegou à Galileia, os galileus receberam-no bem, porque tinham visto tudo o que Jesus tinha feito em Jerusalém, durante a festa. Pois também eles tinham ido à festa. 46 Assim, Jesus voltou para Caná da Galileia, onde havia transformado água em vinho. Havia em Cafarnaum um fun­cionário do rei que tinha um filho doente. 47 Ouviu dizer que Jesus tinha vindo da Judeia para a Galileia. Ele saiu ao seu encontro e pediu-lhe que fosse a Cafarnaum curar seu filho, que estava morrendo. 48 Jesus disse-lhe: “Se não virdes sinais e prodígios, não acreditais”. 49 O funcionário do rei disse: “Senhor, desce, antes que meu filho morra!” 50 Jesus lhe disse: “Podes ir, teu filho está vivo”. O homem acreditou na palavra de Jesus e foi embora. 51 Enquanto descia para Cafarnaum, seus empregados foram ao seu encontro, dizendo que o seu filho estava vivo. 52 O funcionário perguntou a que horas o menino tinha melhorado. Eles responderam: “A febre desapareceu, ontem, pela uma da tarde”. 53 O pai verificou que tinha sido exatamente na mesma hora em que Jesus lhe havia dito: “Teu filho está vivo”. Então, ele abraçou a fé, juntamente com toda a sua família. 54 Esse foi o segundo sinal de Jesus. Realizou-o quando voltou da Judeia para a Galileia.

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Toda a liturgia deste dia nos fala da renovação e da alegria. O profeta Isaías anuncia que Deus vai realizar o novo céu e nova terra. A ação de Deus, através do Messias prometido, construirá uma sociedade nova, porque o Espírito de Deus palpitará em todos os homens e mulheres que escutam a Palavra de Deus e vivem em harmonia com Sua mensagem.

Mediante o Mistério Pascal de Cristo, Deus levou a sua plenitude o que hoje nos anuncia o profeta Isaías. Deus não somente perdoou nossos pecados, mas nos converteu em filhos seus, fazendo-nos participar de seu próprio Espírito, que nos capacita para que entremos em diálogo amoroso com Ele e para que, todos os dias, possamos ser cada vez mais perfeitos como filhos seus por nossa união, cada vez mais íntima com Jesus, seu Filho único e amado em quem Ele se compraz. Mantenhamos nossa fidelidade ao amor que Ele nos tem!

Segundo o Evangelho de João, Jesus começou sua vida pública com seus sinais visíveis em Caná da Galileia. E agora voltou outra vez ao mesmo lugar onde ele fez o primeiro sinal. Nesta volta Ele devolveu a alegria para uma família ao curar à distância um dos membros (filho) que está doente gravemente.

Voltar ao Estado Inicial Para o Qual Deus nos criou é Ser Nova Criatura

“Assim fala o Senhor: Eis que eu criarei novos céus e nova terra, coisas passadas serão esquecidas, não voltarão mais à memória. Um cardeal escreveu que Deus “não tem memória, pois toda vez que você voltar para Deus a fim de pedir o perdão, Deus perdoa”. O mais importante para Deus é voltar, e não quanto tempo você ficou afastado d´Ele. Deus não quer saber o tempo em que ficamos longe d´Ele; Ele quer nossa volta. Até o “bom” ladrão crucificado ao lado de Jesus, foi perdoado (cf. Lc 23,43). A misericórdia de Deus é maior do que nossa miséria, desde que voltemos a Ele.

Is 56-66, onde se encontra o texto da Primeira Leitura, foram escritos depois da volta do exílio na Babilônia. A volta do desterro de Babilônia é descrita com tons poéticos, de nova criação em todos os sentidos: tudo será alegria, fertilidade nos campos e felicidade nas pessoas. Eis que eu criarei novos céus e nova terra, coisas passadas serão esquecidas, não voltarão mais à memória”. Com esta expressão o profeta anuncia uma volta ao paraíso inicial: Deus está projetando um novo céu e nova terra. Deus quer que o homem e a sociedade voltem ao estado primordial de felicidade, equilíbrio e harmonia. Basta o homem voltar para o caminho de Deus, Deus não vai querer mais saber do passado do homem. Deus nos vê como somos e não como éramos quando decidimos nos converter: “...coisas passadas serão esquecidas, não voltarão mais à memória”.

A ideia de uma transformação cósmica que se fala na Primeira Leitura é um tópico na literatura profética, sobretudo, na literatura apocalíptica. São Paulo dirá que toda a criação está em dores de parto esperando a regeneração dos filhos de Deus. A natureza está violentada no estado de pecado do homem, pois o homem está contra os fins para os quais a criação foi feita (Rm 8,22.27). Nos tempos messiânicos, a transformação cósmica se associará ao estado de exultação dos novos cidadãos de Sião.  São João no Apocalipse vai aplicar a transformação cósmica (novo céu e nova terra) para falar da Igreja triunfante (Ap 21,1). Nesse novo estado de coisas já não se recordará o passado, os tempos de angústia física e moral terminaram. Passou a hora das misérias. Até o reino animal participará também deste bem-estar geral. Os animais carnívoros perderão seus instintos sanguinários. É uma volta ao estado de paz dos primeiros dias da criação. Na época messiânica ocorrerá algo parecido, segundo o profeta Isaias.

A Igreja primitiva confessa, como testemunharam os escritos neotestamentários, que com a morte e ressurreição de Jesus começou já a nova criação, os “novos céus e a nova terra”.  Por isso, quem segue os passos de Jesus é uma nova criatura: “Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo!” (2Cor 5,17). Conversão significa voltar ao estado da graça para o qual fomos criados (cf. Jo 1,16-17) e viver permanentemente neste estado.

Para descobrir as “novas” maravilhas de Deus, do homem e do cosmos (novo céu e nova terra), há que começar a vivenciar, cada amanhecer e cada tarde, a novidade de que hoje é nosso dia, meu dia, o dia com que contamos para viver, para recomeçar, para fazer o bem, trabalhar, sorrir; o dia para encontrar-se com um amigo e assim por diante. Cada novo dia é o novo céu e a nova terra nado a mim para ser vivido profundamente. Se não viver cada dia como novo céu e nova terra, será mais um dia perdido da minha vida. Não nascemos para morrer e sim para viver e por isso, temos que saber viver na novidade de Cristo.

Crer Em Jesus Significa Não Parar De Existir

O funcionário do rei disse: ‘Senhor, desce, antes que meu filho morra!’. Jesus lhe disse: ‘Podes ir, teu filho está vivo’”.

Ao começar a Quarta Semana da Quaresma, as leituras quaresmais mudam de orientação. Antes leiamos os evangelhos sinóticos (Mc, Mt e Lc) com passagens do AT formando uma unidade temática com os textos do evangelho lido nos dias da semana. A partir de hoje até a Páscoa (também durante o tempo pascal) vamos ler alguns textos do Evangelho de João numa leitura semicontinuada. Antes o que se enfatizava é o caminho de conversão dia após dia através das leituras. Daqui em diante as leituras nos indicam o modelo do caminho da Páscoa e nossa luta contra o mal no caminho de Jesus com a crescente oposição de seus adversários que acabarão crucificando Jesus.

Hoje o evangelho nos relata que Jesus se encontra novamente em Caná da Galileia onde ele realizou o primeiro sinal: a transformação de água em vinho (Jo 2,1-11). No evangelho de hoje Ele operou outro sinal: a cura do filho de um funcionário real. Ainda que o primeiro sinal seja um espetacular, mas este segundo é mais valioso porque não é algo material o que se soluciona, e sim a vida de uma pessoa que está quase para terminar.

O evangelista João escolhe, como protagonista para o segundo sinal operado por Jesus, um homem que exerce autoridade, um funcionário real (de um rei). E por isso, ele pode ser uma figura de qualquer tipo de poder.

O funcionário real procura Jesus movido pela necessidade. Ele não expressa sua adesão pessoal aJesus, mas precisa de ajuda dele. O funcionário real pede uma intervenção direta de Jesus em favor de seu filho, que está para morrer: que desça pessoalmente e o cure: “Senhor, desce, antes que meu filho morra!”. Sublinhei o verbo “descer” (e “subir”) porque este verbo tem sentido para o evangelho de João. A encarnação é um ato de Deus de descer até a humanidade para que esta possa subir até Deus (salvação).  O caminho de subida passa pelo caminho de descida. A transformação da humanidade consiste no movimento de “descer” e de “subir”. Precisamos descer até nossa humanidade para encontrar a divindade. Somente quem é muito humano passa a ser muito divino, isto é, os outros percebem que ele pertence a Deus. Jesus é tão humano e tão divino simultaneamente. Para encontrar o divino temos que descer às profundezas de nosso ser, de nosso interior. Deus habita dentro de nós (cf. 1Cor 3,16-17), e por isso, precisamos descer até nossa interioridade.

Precisamos pedir a Jesus, a exemplo do funcionário real, para que ele desça até as profundezas de nosso coração a fim de alcançarmos nossa salvação. Sem a descida do Senhor até a nossa interioridade, estaremos à beira da morte, como o filho do funcionário real. “Senhor, desce, antes que eu morra!”, assim poderíamos rezar.

Esse funcionário apenas ouviu falar de Jesus. Movido pela necessidade esse funcionário real foi procurar Jesus para que este pudesse curar seu filho de uma doença mortal. O funcionário pede uma intervenção direta de Jesus a favor de seu filho que está para morrer. Jesus contestou: “Se não virdes sinais e prodígios, não acreditais”. Jesus usa o verbo em plural: “virdes”, “acreditais”. Esse estranho plural, que indica a categoria dos instalados ​​no poder, é outra informação que nos faz penetrar além da superfície. “Se não virdes sinais e prodígios, não acreditais”. Com esta resposta Jesus quer mostrar a mentalidade comum desse tipo de grupo de pessoas: “Não acreditais”. Jesus, através desse funcionário, quer se dirigir aos poderosos e em geral, para aqueles que esperam a salvação na demonstração do poder. Para eles, a fé somente pode ter como fundamento o desdobramento de força, o espetáculo maravilhoso. Mas com Deus não funciona assim. É preciso ter fé em Deus.

O funcionário não se intimidou, mas insiste: “Senhor, desce antes que meu filho morra!”. Com este pedido renovado esse funcionário confessa a impotência do poder diante da debilidade e da morte. O poder deste mundo é impotente para salvar o homem. No leito da morte todo poder, toda fama, toda riqueza, toda influência cai no chão. Aparentemente, o funcionário real reconhece tudo isso e por isso ele recorre a Jesus, o Deus que salva.

Por causa de sua fé, Jesus disse ao funcionário: “Podes ir, teu filho está vivo!”. Com sua resposta Jesus indica que a salvação que ele trouxe não requer a colaboração do poderoso. Jesus atua na simplicidade sem ostentação. Jesus não precisa descer até Cafarnaum. Sua ação não necessita de sua presença física. Sua Palavra é poderosa. Será sua mensagem que comunica vida e faz os homens viverem dignamente. Basta acreditar nela. Jesus comunica vida com sua Palavra que é Palavra criadora e chega a todo lugar. Gn 1 nos mostra que basta uma palavra que Deus criou o universo.

Com sua Palavra e seu convite para que o funcionário real vá, pois o filho está vivo, Jesus quer colocar o funcionário à prova para sua fé e para ver se ele renuncia a seu desejo de sinais espetaculares (“Se não virdes sinais e prodígios, não acreditais”). O funcionário aceita o desafio posto por Jesus e acredita no poder de Sua Palavra.

Como resultado, o funcionário viu seu filho vivo certamente no momento em que Jesus pronunciou sua Palavra: “Podes ir, teu filho está vivo”. Ele que pedia a Jesus como poderoso, agora crê como “homem”; antes se definia por sua função, agora por sua condição humana, pressuposta para toda relação pessoal. Ele confia na Palavra de Jesus e por isso se põe em caminho. Ele renunciou a sua mentalidade de poder e aos sinais portentosos.

A é uma atitude básica da vida humana, do ponto de vista cristão. O crente é aquele que acredita em Deus. A fé capacita a razão para chegar a um conhecimento mais profundo, pois tudo é visto a partir do Deus Criador do universo. Com efeito, ter fé significa olhar para além das coisas para entrar em contato com a verdadeira realidade. No contexto do evangelho de hoje, a fé é uma adesão ao Deus que salva, ao Deus da vida que tira o homem da beira da morte.

Estamos na Quaresma, mas caminhamos para a Páscoa, isto é, para a ressurreição, como professamos no Credo: “Creio na ressurreição da carne”. Toda nossa vida aqui na terra é uma “quaresma”, isto é, uma preparação para a Páscoa definitiva, para o encontro derradeiro com Deus na felicidade sem fim. Para isso, é necessário crer na Palavra de Deus.

A Igreja primitiva confessa, como testemunham os escritos do Novo Testamento, que com a morte e ressurreição de Jesus começou já a nova criação, os “novos céus e nova terra” (cf. 2Pd 3,13; Ap 21,1). Esse começo é imperceptível para os olhos nus. A história humana continua dominada, em grande parte, pelo pecado, pela corrupção e pela morte (seja natural seja forçada ou abortada), porém algo vai mudar. A convivência do lobo e do cordeiro continua, porém o ódio e a hostilidade devem dar lugar para o amor, isto é, o amor vencerá, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Quem segue os passos de Jesus que se resumem nos passos de amor se torna nova criatura e o amor não morrerá, pois é o nome do próprio Deus: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” (2Cor 5,17). Cristo é autor desta nova criação, pois nele Deus se faz presente para o mundo. A fé na nova criação significa o princípio da liberdade humana.

O que chama a atenção deste segundo sinal é que Jesus atua à distância. Ele não precisa ir até Cafarnaum para curar diretamente o enfermo. Sem se mover de Caná Jesus faz o possível o restabelecimento. Diante do pedido do funcionário real: “Senhor, desce, antes que meu filho morra!”, Jesus responde: “Podes ir, teu filho está vivo”.

Isto nos recorda que podemos fazer tantas coisas boas à distância, isto é, sem ter que estar presentes no lugar onde nos solicita nossa generosidade. Assim, por exemplo, colaborar economicamente com nossos missionários ou com entidades católicas e semelhantes que ali estão trabalhando, com as instituições de caridade. Inclusive, podemos dar uma alegria a muita gente que está muito distante de nós com uma chamada de telefone, uma carta ou um correio eletrônico. A distância não é nenhum problema para ser generoso porque a generosidade sai do coração e ultrapassa todas as fronteiras. Como dizia Santo Agostinho: “Quem tem caridade em seu coração, sempre encontra alguma coisa para dar”.

Em segundo lugar, S. João, ao narrar a cura, à distância, do filho do funcionário real, quer nos apresentar Jesus como Palavra de vida. Mas a Palavra que exige a fé. A Palavra de Jesus é o sinal extraordinário e o prodígio que nos oferece. Quem acolhe a Palavra e acredita nela, experimenta milagres e muitas transformações na vida. O funcionário real acolheu a Palavra de Jesus e recebeu como prêmio a cura do próprio filho. Jesus comunica vida com sua Palavra, que é palavra criadora e chega a todo lugar. “Crer” sem necessidade de sinais nem de prodígios é fonte de vida e de cura e de outras tantas transformações na vida. A pesar de ser um excluído da religião oficial, por ser um estrangeiro e por isso, impuro, no entanto Jesus descobre no funcionário real um homem de fé que crê na promessa de cura apesar com palavra apenas e à distância. O perigo de toda religião é chegar a crer no legalismo. Quando a lei se entroniza no interior da mesma, a surpresa e a gratuidade do encontro com Deus, que é o que realmente define o milagre, se tornam impossíveis. O legalismo, por fazer que as coisas boas sucedam como recompensa para a observância da lei, destrói a possibilidade da graça e do verdadeiro milagre. A possibilidade de encontrar-se com as pessoas do tipo do funcionário real, necessitadas do amor mais que da lei, faz renascer em Jesus a imensa alegria da misericórdia. A partir daqui todo milagre é possível.

Portanto, acreditar e obedecer, acolher a Palavra de Deus e pô-la em prática é uma questão de vida ou de morte. Se soubermos caminhar na fé acreditando na Palavra de Deus, mesmo na noite escura do sofrimento e da provação, a Palavra será como uma lâmpada para os nossos passos.

Aprendemos da cena do evangelho deste dia que a verdadeira fé em Deus e na Sua Palavra significa crer sem necessidade de sinais nem prodígios, crer sem milagres, crer sem ver (cf. Hb 11,1). O evangelista João sublinha que o funcionário real acreditou na Palavra de Deus sem verificação. Ele simplesmente foi embora com a Palavra de Deus em seu coração. Não tinha nenhuma prova no momento, tinha somente “a Palavra” de Jesus. O funcionário está totalmente na fé, no salto da fé, na confiança ilimitada da fé. “A quem nós iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68). Que o teu orgulho e objetivo consistam em pôr no teu trabalho algo que se assemelhe a um milagre (Leonardo da Vinci). Só há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem. A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre(Albert Einstein).

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 13 de março de 2026

IV Domingo Da Quaresma - Ano "A", 15/03/2026

JESUS É A LUZ QUE ILUMINA E JULGA O MUNDO QUE ESTÁ CHEIO DE CEGUEIRAS

IV DOMINGO DA QUARESMA DO ANO “A”

I Leitura: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a

Naqueles dias, o Senhor disse a Samuel: 1bEnche o chifre de óleo e vem para que eu te envie à casa de Jessé de Belém, pois escolhi um rei para mim entre os seus filhos. 6Assim que chegou, Samuel viu a Eliab e disse consigo “Certamente é este o ungido do Senhor!” 7Mas o Senhor disse-lhe: Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”. 10Jessé fez vir seus sete filhos à presença de Samuel, mas Samuel disse: “O Senhor não escolheu a nenhum deles”. 11E acrescentou: “Estão aqui todos os teus filhos?” Jessé respondeu: Resta ainda o mais novo que está apascentando as ovelhas”. E Samuel ordenou a Jessé: “Manda buscá-lo, pois não nos sentaremos à mesa enquanto ele não chegar”. 12Jessé mandou buscá-lo. Era Davi, ruivo, de belos olhos e de formosa aparência. E o Senhor disse: “Levanta-te, unge-o: é este!” 13aSamuel tomou o chifre com óleo e ungiu a Davi na presença de seus irmãos. E a partir daquele dia o espírito do Senhor se apoderou de Davi.

II Leitura: Ef 5,8-14

Irmãos: 8 Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz. 9E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade. 10 Discerni o que agrada ao Senhor. 11Não vos associeis às obras das trevas, que não levam a nada; antes, desmascarai-as. 12O que essa gente faz em segredo, tem vergonha até de dizê-lo. 13Mas tudo que é condenável torna-se manifesto pela luz; e tudo o que é manifesto é luz. 14É por isso que se diz: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá”.

Evangelho: Jo 9,1-41

Naquele tempo: 1Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. 2Os discípulos perguntaram a Jesus: 'Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?' 3Jesus respondeu: 'Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele. 4É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar. 5Enquanto estou no mudo, eu sou a luz do mundo.' 6Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. 7E disse-lhe: 'Vai lavar-te na piscina de Siloé' (que quer dizer: Enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando. 8Os vizinhos e os que costumavam ver o cego - pois ele era mendigo - diziam: 'Não é aquele que ficava pedindo esmola?' 9Uns diziam: 'Sim, é ele!' Outros afirmavam: 'Não é ele, mas alguém parecido com ele.' Ele, porém, dizia: 'Sou eu mesmo!' 10Então lhe perguntaram: 'Como é que se abriram os teus olhos?' 11Ele respondeu: 'Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a nos meus olhos e disse-me: 'Vai a Siloé e lava-te'. Então fui, lavei-me e comecei a ver.' 12Perguntaram-lhe: 'Onde está ele?' Respondeu: 'Não sei.' 13Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego. 14Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego. 15Novamente, então, lhe perguntaram os fariseus como tinha recuperado a vista. Respondeu-lhes: 'Colocou lama sobre meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!' 16Disseram, então, alguns dos fariseus: 'Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado.' Mas outros diziam: 'Como pode um pecador fazer tais sinais?' 17E havia divergência entre eles. Perguntaram outra vez ao cego: 'E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?' Respondeu: 'É um profeta.' 18Então, os judeus não acreditaram que ele tinha sido cego e que tinha recuperado a vista. Chamaram os pais dele 19e perguntaram-lhes: 'Este é o vosso filho, que dizeis ter nascido cego? Como é que ele agora está enxergando?' 20Os seus pais disseram: 'Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego. 21Como agora está enxergando, isso não sabemos. E quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Interrogai-o, ele é maior de idade, ele pode falar por si mesmo.' 22Os seus pais disseram isso, porque tinham medo das autoridades judaicas. De fato, os judeus já tinham combinado expulsar da comunidade quem declarasse que Jesus era o Messias. 23Foi por isso que seus pais disseram: 'É maior de idade. Interrogai-o a ele.' 24Então, os judeus chamaram de novo o homem que tinha sido cego. Disseram-lhe: 'Dá glória a Deus! Nós sabemos que esse homem é um pecador.' 25Então ele respondeu: 'Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo.' 26Perguntaram-lhe então: 'Que é que ele te fez? Como te abriu os olhos?' 27Respondeu ele: 'Eu já vos disse, e não escutastes. Por que quereis ouvir de novo? Por acaso quereis tornar-vos discípulos dele?' 28Então insultaram-no, dizendo: 'Tu, sim, és discípulo dele! Nós somos discípulos de Moisés. 29Nós sabemos que Deus falou a Moisés, mas esse, não sabemos de onde é.' 30Respondeu-lhes o homem: 'Espantoso! Vós não sabeis de onde ele é? No entanto, ele abriu-me os olhos! 31Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade. 32Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33Se este homem não viesse de Deus, não poderia fazer nada'. 34Os fariseus disseram-lhe: 'Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?' E expulsaram-no da comunidade. 35Jesus soube que o tinham expulsado. Encontrando-o, perguntou-lhe: 'Acreditas no Filho do Homem?' 36Respondeu ele: 'Quem é, Senhor, para que eu creia nele?' 37Jesus disse: 'Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo.' Exclamou ele: 38'Eu creio, Senhor'! E prostrou-se diante de Jesus. 39Então, Jesus disse: 'Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem, vejam, e os que veem se tornem cegos.' 40Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isto e lhe disseram: 'Porventura, também nós somos cegos?' 41Respondeu-lhes Jesus: 'Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: 'Nós vemos', o vosso pecado permanece.'

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IV Domingo Dentro Do Contexto Da Caminhada Catecumenal (Catecumenato)

O IV Domingo da Quaresma é notável, como se sabe, por diversos motivos: é o DomingoLaetare” (“alegria”, e por isso, pode ser usada a cor rosa), segundo o título clássico, que anuncia a proximidade da Páscoa, passada já a metade da Quaresma; é o Segundo Domingo de Escrutínios, na caminhada do catecumenato, segunda etapa desta grande experiência de exame interior e renovador a que todos somos chamados a realizar, em solidariedade com os candidatos ao Batismo, inclusive se não se encontram na nossa paróquia ou comunidade, mas que existem certamente na Igreja, N caminhada do catecumenato, no ciclo A, este domingo é chamado o Domingo “luminoso”.

O texto fundamental deste Domingo é o Evangelho do cego de nascimento, a leitura integral. Nesta ocasião, o texto que acompanha diretamente o Evangelho não é a Primeira leitura e sim a Segunda Leitura do Apóstolo Paulo, com referências claramente batismais (Ef 5,8-14). A Primeira Leitura (1Sm 16,1b.6-7.10-13ª) segue neste domingo o itinerário próprio das Primeiras Leituras dos Domingos da Quaresma: as etapas da história da salvação. Para o Quarto Domingo da Quaresma corresponde, cada ano, uma referência ao “reino”, este ano, por isso, lemos a narração da primeira unção do rei Davi: sua “eleição” por parte de Deus, quando estava apascentando os rebanhos de seu pai. Esta eleição de Davi pode ter também uma referência catecumenal, em atenção aos “eleitos” que se preparam para receber o Batismo. Também o pastoreio de Davi suscita a imagem do verdadeiro pastor de Israel: o Senhor, Jesus Cristo (que logo depois da narração do cego de nascença há o discurso sobre o Bom Pastor em Jo 10: evangelho que lemos no IV Domingo da Páscoa).

Será conveniente ler o evangelho na íntegra, mesmo que seja longo. É uma catequese dramática e progressiva da pessoa de Cristo como Luz (domingo passado como Água Verdadeira, e no próximo domingo como Ressurreição e Vida). O evangelista João retrata Jesus hoje como a verdadeira Luz, numa revelação progressiva, muito típica deste evangelho, que culmina no "Eu Sou" na boca de Cristo (cap. 9: "Eu sou a Luz"; cap. 10: " Eu sou o Pastor... a Porta"; cap. 11: "Eu sou a Vida"...). Vida e luz estão intimamente ligadas. Por isso, a expressão “Vir à luz” significa NASCER. “Dar a luz” significa dar a vida. O contrário da luz é as trevas e a noite, a cegueira e o engano, a tristeza e o ódio: a morte.

Por isso, a cura da vista corporal serve para construir toda uma catequese da luz espiritual, com a qual Cristo nos ilumina e nós O reconhecemos como o Enviado. Esta chave é central na Palavra de hoje, e deve estar relacionada com a Páscoa que estamos preparando (também a celebraremos com o simbolismo da Luz), com o Baptismo que recordamos e renovamos (o simbolismo da Vela e das velas é também característico deste sacramento), com a vida pascal que queremos viver.

O homem de hoje carece de luz. Quem mais quem menos, estamos todos numa situação de melancolia ou escuridão: dúvidas, solidão, desorientação, busca, confusão de ideias. A resposta de Deus é seu Filho, Jesus, a Luz que dissipa todas as trevas, derrota a morte, que guia e dirige, comunica a verdade, conduz à salvação e à alegria. É isso que celebramos na Páscoa. A verdadeira Luz está no próprio Deus, "luz sobre toda luz". Cristo é "o Sol nascendo do alto".

Se o diálogo com a Samaritana (Jo 54,5-42: III Domingo da Quaresma “A”) conduzia a “indagar” ou “perscrutar” as disposições interiores para acolher a oferta do Dom do Espírito feito por Cristo, a narração do cego de nascimento conduz a “indagar” ou a “perscrutar” as zonas de nossa vida que se resistem à “iluminação” batismal e permanecem mais ou menos tenebrosas. As dificuldades que rodeiam o cego em sua experiência de iluminação são, por outro lado, indicativas de situações paralelas em nossas vidas: o cristão se encontra facilmente com reações de admiração, de contradição, de exclusão, de interrogação, inclusive de desconhecimento (“Não é ele, mas alguém parecido com ele”). Isto significa que faz falta a convicção da fé para manter o testemunho, e unicamente deixando-nos iluminar mais e mais pelo Senhor é que conseguiremos levar uma vida iluminada.

Se a luz em nós é ainda fraca, a Quaresma é, então, o tempo propício para alimentar nossa vida com a Palavra de Deus, com a contemplação pessoal sobre a pessoa de Jesus, Luz do Mundo, a exemplo do cego de nascimento, com os sacramentos da Eucaristia e da Penitência.

Hoje um cego compartilha com Jesus Cristo o protagonismo da página evangélica. Sempre, mas muito mais na época em que vivia Jesus, o cego é um homem que, por seu defeito físico, carece de autonomia; um homem que em determinados momentos necessita dos demais; um homem, em uma palavra, dependente. A aproximação de Jesus deste homem e a atenção especial que Jesus lhe demonstra tem para o homem cego uma consequência imediata e positiva: fica curado de sua cegueira e convertido em um homem completo e libertado. Já não necessitará de outro homem que o guie e já não necessitará que uma mão misericordiosa ponha em sua mão estendida uma esmola. O cego do Evangelho se converteu, por obra e graça de Jesus Cristo, em um homem que pode andar só.

Por meio de duas imagens contrapostas: trevas-luz, são Paulo insiste aos cristãos para que tomem consciência do que são e tomem decisão que salve sua vida. Trevas e luz indicariam duas possíveis maneiras de ser, opostas e excludentes entre si, como a noite e o dia, opondo o que estes homens eram e o que agora são. A luz que brilha, ilumina faz pensar nas obras boas: “O fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade” (Ef 5,9). Também as trevas são operantes, mas suas obras são “estéreis”: “Não vos associeis às obras das trevas, que não levam a nada; antes, desmascarai-as. O que essa gente faz em segredo, tem vergonha até de dizê-lo(Ef 5,11-12).

O Evangelho Proclamado Neste Quarto Domingo Da Quaresma E Sua Mensagem!

A cura da vista corporal serve para construir toda uma catequese da luz espiritual, com a qual Cristo nos ilumina e nós O reconhecemos como o Enviado. Esta chave é central na Palavra de hoje, e deve estar relacionada com a Páscoa que estamos a preparar (também a celebraremos com o simbolismo da Luz), com o Batismo que recordamos e renovamos (o simbolismo da Vela e das velas é também característico deste sacramento), com a vida pascal que queremos viver.

Os capítulos 9,1-10,42 formam uma seção que apresenta Jesus como Luz (e bom pastor) que julga o mundo. O ponto de partida dessa seção é a cura do cego de nascença. Ao devolver a visão ao cego de nascença, Jesus se apresenta como a verdadeira Luz do mundo (cf. Jo 8,12).       

A cura do cego de nascença é o triunfo da luz sobre as trevas (cf. Jo 1,5). Mas a luz produz automaticamente um juízo, pois com a presença da Luz,  tudo se ilumina e nada se esconde. A luz faz qualquer pessoa se julgar se está de roupa limpa ou suja. Em outras palavras, a presença de Jesus no mundo causa a separação (juízo) entre quem é de Jesus e quem não faz parte da comunhão com ele. O tema que domina nesse episódio certamente é o julgamento (juízo) por causa da vinda da Luz.  O tema do juízo, na verdade, já foi acentuado em Jo 3,19-21: “Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque as suas obras eram más. Pois quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus”.        

Na seção da qual tratamos, o juízo é dirigido concretamente contra aqueles que querem apagar esta luz diante da evidência de cura do cego de nascença. Tanto em Jo 9 como em Jo 10, Jesus está diante das classes dirigentes do povo, o judaísmo oficial, que acabam de julgar e expulsar o cego curado. E o cego curado, expulso da comunidade, representa Jesus e os cristãos expulsos (Jo 9,22). O juízo também vai ser contra os maus pastores que são mencionados em Ez 34 como o pano de fundo da alegoria do bom pastor em Jo10 e ao mesmo se realiza a promessa sobre o bom pastor na pessoa de Jesus. Em outras palavras, a presença de Jesus como Bom Pastor produz um juízo (julgamento) contra os maus pastores. A presença do bom evidencia a existência do mau, pois a comparação é inevitável. E o mau que quer manter o poder odeia a presença do bom, como já foi citado Jo 3,19-21.        

A cura do cego de nascença é o sexto sinal realizado por Jesus. Através desta cura João quer desenvolver o tema sobre a Luz do mundo (Jesus) que já se encontra logo no prólogo do seu evangelho: “...a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la” (Jo 1,4-5). Este tema se desenvolve já no capítulo 8 onde Jesus se autodefine como Luz do mundo: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12) e que agora, no capítulo 9, este tema se aprofunda.          

Em Jo, o simbolismo da iluminação recebe todo seu relevo do fato de se tratar de um cego de nascença, situação sem paralelo na tradição sinótica. Mais do que como ato de poder (dýnamis, grego) realizando o anúncio profético, este dom da visão é apresentado como um “sinal” (seméion, cf. 9,16), cujo sentido Jesus indica antes mesmo de realizá-lo: afirma aos discípulos que ele é a Luz do mundo (9,5). Se Cristo pode fazer que um cego veja, ele demonstra que ele mesmo é a luz. E se é a luz, Jesus tem que fazer que um cego veja.        

Mas a luz produz automaticamente um juízo (julgamento). A idéia do juízo (julgamento) havia sido apontada já em Jo 3,19-21. Aqui, em Jo 9, o juízo vai ser dirigido concretamente contra aqueles que querem apagar esta luz mediante o processo suscitado a propósito da cura do cego de nascença.        

O evangelho nos relata que o cego de nascença encontrou-se com Cristo na piscina de Siloé. “Siloé” significa “o enviado” (Jo 9,17). Na fonte de Siloé o cego vai ao encontro de Cristo, o enviado de Deus, que é a Luz do mundo. Para o evangelho de João, essa é a imagem do batismo. A Igreja primitiva entendia o batismo como iluminação. O batismo foi nossa primeira “iluminação” (“iluminados” foi durante séculos sinônimo de “batizados”). Em cada Páscoa nós recordamos o Batismo. E fazendo-nos sintonizar com a nova Vida em Cristo, cada Páscoa nos convida e urge que em nossa vida se notem os “frutos da luz”, abandonando as “obras das trevas” (Paulo enumera a bondade, a justiça, a verdade). A fé significa uma visão nova. Aquele que crê, vê com mais profundidade. Vê além das aparências, pois vê a partir do olhar de Deus. Nós que somos “iluminados”pela Luz de Cristo (no Batismo), devemos ser, por nossa vez, “iluminadores” dos demais, como o cego que deu testemunho de sua fé em Cristo que custou na sua expulsão da sinagoga.                     

1. Quem É Culpado?           

O episódio começa com a pergunta dos discípulos: “Rabi, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” (v.2).

Segundo a mentalidade antiga, o bem-estar e a desgraça eram fruto lógico da conduta moral adequada ou extraviada, respectivamente (Rm 6,23). A desgraça era efeito do pecado, que Deus castigava em proporção exata com a gravidade da culpa. A partir deste princípio geral é que era evidente considerar a enfermidade como consequência do pecado. Se o sofrimento ou qualquer tipo de enfermidade era consequência do pecado, a causa dos defeitos de nascimento havia que buscá-la nos pais ou antepassados, pois existia a ideia de que os pecados se vingam nos filhos (cf. Ex 20,5; mas este texto opõe somente o castigo limitado do Deus da Aliança: para quatro gerações; cf. também Ex 34,6-7; Jó 34,10s). 

Hoje em dia se fala da conexão entre obra e resultado, ou a causa e o efeito. Os atos bons comportam uns efeitos bem precisos, e os atos maus tem consequências negativas tanto para os indivíduos como para a comunidade. Portanto, das sequelas boas ou maus, da felicidade ou desgraça, do bem-estar e da enfermidade, das catástrofes, etc. pode deduzir-se a conduta boa ou mau de uma pessoa. 

Embora não sofressem a desgraça dos leprosos, e não fossem excluídos da cidade e da convivência, também os cegos eram considerados como “pecadores”, por duas razões: Deus não os teria castigado com a cegueira, se não cometessem algum pecado. Além disso, os cegos não tinham condições de cumprir todos os mandamentos, por isso, dificultavam seu acesso ao Reino de Deus. A cura da cegueira, naquele tempo praticamente impossível, só era esperada através da intervenção de Deus num milagre. O cego de nascença, por isso, representa uma pessoa que se encontra numa situação sem esperança. 

O problema que surge deste tipo de pensamento afeta a fé. Se Deus é o autor de todo bem, se Ele é o Deus de direito, da justiça e do amor, não há dúvida de que o problema da injusta distribuição de bens e males no mundo e na história constitui um gravíssimo escândalo para a fé em Deus. Daí que um homem como Jó no AT não luta somente por seu direito, mas luta contra este tipo de Deus, pois ele não fez nada de errado, no entanto sofreu. A experiência da injustiça representa um dos ataques mais violentos contra a fé em Deus. 

Até aqui podemos parar um pouco para tirar umas mensagens. Primeiro, a forma de ver as doenças como castigo de Deus não terminou. Nós a encontramos no nosso povo que muitas vezes vive os seus sofrimentos como se fosse uma punição divina. 

O pecado é uma realidade humana; mas nós, cristãos, acreditamos num Deus pronto a perdoar. Deus não se cansa de perdoar, pois não pára de nos amar. É um Deus de amor e não de castigos.  É claro que muitos de nossos sofrimentos são consequência de nossos atos e opções, e por isso, não tem que procurar em Deus o porquê destes sofrimentos. Isto quer nos dizer que antes de fazer qualquer coisa temos que parar para analisar quais serão as consequências disso tanto positivas como negativas. Mas Deus está sempre do lado de qualquer homem e contra o pecado e a mal e a maldade. O que Deus rejeita são as condições desumanas em que vive a maioria da nossa população. 

Segundo, é bom procurar as causas de um sofrimento ou de qualquer falha ou erro, mas é melhor evitar qualquer tipo de acusação ou ato de jogar culpa em qualquer pessoa sem sabermos bem as principais causas. Afinal, o que pretendemos alcançar ao jogar culpa em alguém ou ao acusar alguém? Teremos alguma solução através desta acusação? 

Deus ataca o pecado sem atacar o pecador. Deus ama o pecador e odeia o pecado (cf. Ez 18), e por isso, enviou seu Filho para salvar o pecador (cf. Jo 3,16). Deus quer libertar o homem da culpa através do caminho do amor cuja expressão máxima é o perdão. Para aprender a amar de verdade, temos que aprender a perdoar sem limites (cf. Mt 18,21-22). Jesus deseja desenraizar em nós o espírito de acusação, o mau espírito que o Apocalipse chama de “o acusador de nossos irmãos”, o espírito que procura sempre um culpado: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus”, disse Jesus. Jesus quer que abandonemos o espírito culpabilizado e culpabilizante e transformemos nossos olhos em um grito à luz.          

O estado do cego de nascença, por isso, não pode ser uma figura da condição pecadora da humanidade. Seu estado simboliza outra escuridão, aquela escuridão em que todo homem se encontra antes de ser iluminado pela revelação do Filho de Deus ou pela Palavra de Deus. Podemos traduzir estas trevas ou escuridão, em nossa linguagem como uma desorientação interior, isto é, aquele estado de desordem em que não se sabe aonde se vai e como se vai, para que vive e por que vive. Esta desorientação interior certamente é hoje um fenômeno difuso. E tal desorientação interior, quando não é simplesmente sofrida com o desejo de sair dela, mas é assumida como sistema de vida, faz com que a pessoa se deixe arrastar pelos impulsos e pelas situações empíricas, sem nunca enfrentar o verdadeiro porquê das coisas. 

Por isso, com a palavra “trevas” ou “escuridãoo evangelista João quer indicar aquele caminhar ao acaso e mal, que é típico de quem não tem um ponto de referência. Ele nos diz: o fato de não reconhecer Jesus Cristo, como o sentido último da realidade que dá valor a todas as coisas, faz com que as pessoas se encontrem nas trevas, sem pontos de referência. Então se vai em frente ao acaso, tateando, com oscilações contínuas de um extremo ao outro, sem nunca saber bem o que se faz e por que se faz, com todas as consequências desastrosas desta desorientação que se resumem naquela desordem das operações.          

Com isso, Jesus quer sublinhar o para quê da enfermidade, e não o seu porquê. Para Jesus o que é mais importante é a realização do “milagre” (sinal) da cura do cego, um “milagre” (sinal) capaz de revelar Jesus como Luz do mundo. A enfermidade vai servir para mostrar Deus em ação em Jesus Cristo. Em outras palavras, Jesus justifica a enfermidade como um instrumento para esclarecer a sua afirmação “Eu sou a luz”. 

2. Jesus É A Luz Dos Homens E A Fé Nele Faz O Homem Enxergar Melhor A Vida          

Para o AT e para o judaísmo, a luz era símbolo da Lei e da sabedoria. De ambas se dizia que eram a luz dos homens. No mundo helenista a luz simbolizava o conhecimento de Deus. Os primeiros cristãos consideraram o evangelho como a luz. Com sua auto-apresentação ou auto-revelação “Eu sou a luz”, Jesus atribui à sua pessoa o que se havia dito da lei, de sabedoria, do conhecimento de Deus e do evangelho. Jesus ilumina o mistério da existência humana e procura e traz a salvação para os homens que a haviam esperado da lei. Para Jesus é necessário que o homem aproveite a luz do dia, isto é, a presença de Jesus. Sua ausência significa a irrupção/invasão do mundo das trevas, do mundo antidivino.          

Neste episódio, é Jesus quem inicia a obra de cura, não é o cego que pede. E o modo de Jesus curar o cego nos surpreende: com saliva e barro. Somente João e Marcos relatam esse gesto de Jesus de usar a saliva. Nessa cura Jesus faz barro (lama) com a saliva e põe nos olhos do cego. O barro que Jesus faz remonta ao primeiro relato da Criação (Gn 2,4b-25), no qual o ser humano é moldado por Deus do barro e sopra nele o espírito da vida. A prática de Jesus faz nascer o homem novo. Com o barro nos olhos, o cego é ordenado a ir à piscina de Siloé: “Vai para a piscina de Siloé e lava-te”. Jesus toma a iniciativa, mas quer que o cego faça alguma coisa. Ele obriga a pessoa a fazer sua parte. A ordem que Jesus dá faz pensar naquela que o profeta Eliseu deu a Naamã, o sírio, de ir mergulhar sete vezes no Jordão (2Rs 5). Naamã mostrava-se reticente, mas o cego de nascença, como o funcionário real (Jo 4,50), obedece à palavra de Jesus. É em Siloé que a lama se desfaz e o cego de nascença recebe a visão.        

O cego curado representa todas as pessoas que começam a “enxergar” tudo a partir do momento em que aceitarem Jesus, Luz do mundo, e viverem segundo seus ensinamentos. A narração nos mostra o itinerário ou o processo de fé. O “lavado”, o batizado, o crente que aceita o Enviado (Jesus) começa a ver, é iluminado, passa das trevas à luz, no entanto, não repentinamente nem de uma maneira claramente perceptível ao exterior, mas profundamente experimentado no interior. A palavra de Deus tem um poder transformante. Em seu contato o homem deixa de ser como antes: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” ( 2Cor 5,17). A fé em Jesus, Luz do mundo possibilita o homem a enxergar a vida da maneira que Deus a vê. 

3. O Encontro De Cura Se Transforma Em Encontro De Fé         

O cego curado personifica o processo de fé. Primeiro se limita a contar os fatos (Jo 9,11). Depois, e partindo dos fatos, descobre que Jesus é profeta (Jo 9,17) que Deus o escutou. Portanto, Jesus não é pecador e sim piedoso e justo (Jo 9,31). Ele é o Senhor (Jo 9,38). O cego se converte em modelo de todos os crentes.          

Jesus, no fim, se revela: “Tu acreditas no Filho do Homem?”. Este homem responde: “Quem é ele, Senhor, para que eu creia nele?”. Jesus declara: “Tu o estás vendo: é o que fala contigo”. Prontamente ele exclamou: “’ Creio, Senhor’! E prostrou-se diante dele”. O encontro de cura se transforma em encontro de fé. O cego vê e crê. Seu ver é símbolo do crer: vê a luz do mundo, que é o Cristo.          

4. Reconhecer Minha Cegueira Possibilita A Aproximação Da Luz Que é o Cristo                 

Quais as maiores cegueiras do nosso grupo ou da nossa comunidade/paróquia? Será que realmente iluminamos os caminhos dos outros ou os escurecemos?  Quantas vezes, de propósito, fingimos não enxergar nossos defeitos ou fraquezas por nossa autossuficiência ou arrogância, como os fariseus? Cegos são os que não enxergam a verdade, o sofrimento dos irmãos e nada fazem quando podem fazer muito.

Não se vê bem sem o coração, pois o essencial é invisível aos olhos”, diz o Pequeno Príncipe. Fomos feitos de barro (Gn 2,7) e só aceitando nossa condição terrena, como o cego de nascença que aceitou a lama colocada em seus olhos por Jesus, é que conseguimos ver melhor. Ver significa encarar a própria verdade, principalmente aquilo que não nos agrada, mas contém a verdade. Somente quem tem coragem de descer à sua própria condição como criatura, somente quem é humilde é que consegue abrir os olhos e enxergar melhor as pessoas e a realidade como elas são. Quem, em sua arrogância, se recusa a olhar para a própria realidade permanece-se cego, estéril e vive enganando e explorando os outros. Quem engana é porque tem um coração escuro. Cegos são aqueles que somente sabem enxergar os próprios interesses e não as necessidades dos outros. 

Os que não querem ver a verdade também progridem em sua cegueira, pouco a pouco chegam ou chegarão à obcecação. Os que chegam à obcecação são aqueles que presumem ver, os que estão interessados em que não haja mais luz que a luz de seus olhos, os que não sabem duvidar nem perguntar. É muito difícil ver para aqueles que amam muito mais seu prestígio do que a verdade; para aqueles que estão possuídos de sua autoridade e pretendem não equivocar-se nunca até o extremo de exigir obediência cega; para aqueles que se constituem a si mesmos em guia de cegos. Todos os que se empenham em julgar o bem a partir de sua legalidade e não questionam nunca sua legalidade a partir do bem, são trevas: não veem, não querem ver e não deixam ver.

Nossa Cegueira Não Reconhecida

Lemos a história de um cego. Ele é um cego de nascimento. Obscuridade total. Somente através de sentir o calor conhece a luz. Somente pelo tato conhece as coisas. Somente pela palavra conhece as pessoas.

Fisicamente não somos cegos. Mas em certo sentido somos cegos, porque vemos nada. Vemos escassamente a superfície das pessoas, das coisas e dos acontecimentos, mas não vemos sua verdadeira e profunda realidade ou dito biblicamente: “O homem olha para as aparências, mas o Senhor olha para o coração”. O coração da vida nos é escapado sempre. Nós nos acreditamos lúcidos, mas somos cegos e esta é a pior cegueira; não saber que estamos ou somos cegos. Vemos as pessoas e as tratamos superficialmente e que muitas vezes convertemos as pessoas em coisas para serem usadas. Outras vezes a pessoa se converte em um número ou em um voto. Um ser anonimato. Outras vezes é um rival a vencer ou um inimigo a ser eliminado. 

Somos cegos para entender a mensagem de Deus em cada acontecimento, embora tudo seja evidente, como os fariseus diante da cura de um cego de nascença. Vemos os acontecimentos como algo rotineiro. Talvez fiquemos admirados ou surpreendentes, mas de maneira passageira sem que nos deixar alguns vestígios. É preciso se deixar interpelar pelos acontecimentos de cada dia, sejam grandes ou pequenos. É preciso deixar-se encontrar por Jesus, Luz do mundo para que voltemos a enxergar o sentido de cada pessoa humana, de cada coisa e de cada acontecimento, como o cego de nascença que se deixou encontrar por Jesus e voltou a enxergar como resultado deste encontro. 

Podemos ler uma e mil vezes o evangelho sem ver Jesus ou sem encontrar Jesus. Desde começo de seu Evangelho, João evangelista não deixa repetir: “A luz brilha na noite, mas a noite não capta a luz” (Jo 1,5). Diante do cego que “vê” e os fariseus que o olharam mas sem vê-lo, Jesus se sente obrigado a constatar o que ocorre quando ele aparece: Os cegos vem e os que vem se fazem cegos. 

Deus Não Nos Abandona Mesmo Cercados De Dificuldades

 Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença... Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. E disse-lhe: 'Vai lavar-te na piscina de Siloé', que quer dizer: Enviado. O cego foi, lavou-se e voltou enxergando”. 

Esse passo não era casual; estava já preparado desde toda a eternidade: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele. É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia”. A iniciativa da salvação parte de Jesus. O cego não podia ver Jesus, mas Jesus o via. Não é o cego que pede a luz. É a luz que se oferece ao cego. É a luz que se aproxima das trevas. 

Deus atua salvificamente no topo da crise. Quando se chega ao limite do desespero, ai atua Deus. Quando Maria Madalena chora desesperadamente perto do túmulo, aparece Jesus Ressuscitado. Quando Paulo está no topo de sua violência contra os cristãos aparece Jesus identificado com todos os perseguidos. Quando alguém apalpa o limite da incapacidade, então Deus diz Sua palavra. 

Vai lavar-te na piscina de Siloé (que quer dizer: Enviado)”. Não é uma água qualquer. É a água do Enviado. É a água que brotará do coração de Cristo. É a água do Espírito e a piscina é a Igreja. Lavar-se na piscina de Siloé é submergir-se em Cristo no seio da comunidade, o que chamamos Batismo. Esta piscina (o Enviado, a piscina da graça) contrasta com a de Jo 5,2-7, a piscina dos cinco pórticos (a Tora, piscina da Lei) onde era muito difícil obter a cura. O cego enxerga porque recorre a Jesus. 

Hoje pedimos ao Senhor que cure a nossa cegueira para que possamos começar a ver tudo de maneira diferente: a vida, a verdade e os irmãos, até os sofrimentos. Só assim caminharemos como filhos da luz, estrear olhos novos, ver os outros como filhos de Deus e irmãos nossos.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 12 de março de 2026

14/03/2026- Sábado Da III Semana Da Quaresma

HUMILDADE NO REZAR E NO AGIR E NO CONVIVER É TAMBÉM FRUTO DE NOSSA CONVERSÃO

Sábado da III Semana da Quaresma 

Primeira Leitura: Os 6,1-6

1 “Vinde, voltemos para o Senhor, ele nos feriu e há de tratar-nos, ele nos machucou e há de curar-nos. 2 Em dois dias, nos dará vida, e, ao terceiro dia, há de restaurar-nos, e viveremos em sua presença. 3 É preciso saber segui-lo para reconhecer o Senhor. Certa como a aurora é a sua vinda, ele virá até nós como as primeiras chuvas, como as chuvas tardias que regam o solo”. 4 Como vou tratar-te, Efraim? Como vou tratar-te, Judá? O vosso amor é como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz. 5 Eu os desbastei por meio dos profetas, arrasei-os com as palavras de minha boca, mas, como luz, expandem-se meus juízos; 6 quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.

Evangelho: Lc 18, 9-14        

Naquele tempo, 9Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros: 10Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. 11O fariseu, de , rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque eu não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. 12Eu jejuo duas vezes por semana, e eu dou o dízimo de toda a minha renda’. 13O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ 14Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”.

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A Conversão É o Trabalho Diário Até o Fim De Nossa Vida Neste Mundo

Vinde, voltemos para o Senhor, ele nos feriu e há de tratar-nos, ele nos machucou e há de curar-nos. Em dois dias, nos dará vida, e, ao terceiro dia, há de restaurar-nos, e viveremos em sua presença”.

Desta vez é o profeta Oseias quem nos convida a nos converter aos caminhos de Deus. Sua experiência pessoal (sua mulher foi infiel no casamento, pois esta foi atrás de outro homem, mas Oseias continuava mostrando sua fidelidade) serve-lhe para descrever a infidelidade do povo de Israel para Deus, o Esposo sempre fiel. E ele põe nos lábios dos israelitas umas palavras muito belas de conversão: “Vinde, voltemos para o Senhor, ele nos feriu e há de tratar-nos, ele nos machucou e há de curar-nos. Em dois dias, nos dará vida, e, ao terceiro dia, há de restaurar-nos, e viveremos em sua presença”.

Converter-se é em hebraico, como também em latim, voltar-se, voltar, desandar: o homem volta para Deus, porque Deus o chama. Este Deus, quem nos chama  de volta de nossos desvios, está cheio de ternura: “... ele nos machucou e há de curar-nos. Em dois dias, nos dará vida, e, ao terceiro dia, há de restaurar-nos, e viveremos em sua presença. ... Certa como a aurora é a sua vinda, ele virá até nós como as primeiras chuvas, como as chuvas tardias que regam o solo”. Segundo o profeta Oséias, voltamos para Deus porque Ele é amoroso e misericordioso. A bondade e a misericórdia de Deus nos atraem, nos fazem voltarmos ao caminho de Deus, pois descaminhamos. A certeza de que Deus nos cura e nos restaura torna nossa volta a Deus mais fácil e leve. A misericórdia de Deus e sua ternura pesa mais do que nossa miséria. Tudo se tornará leve, apesar de nossos pecados, quando olharmos a partir da ternura e da misericórdia de Deus, como o filho pródigo que decidiu voltar para a casa paterna (cf. Lc 15,11-32).

A voz de Deus que nos chama é uma voz que salva a distância e supera os obstáculos para voltar a criar presença e intimidade. Voltar-se supõe o desvio do caminho certo. A conversão é um retorno. Jesus ilustra de maneira inesquecível essa imagem do retorno com a maravilhosa parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32). Isto significa que o pecado é sempre um afastamento. Com o pecado se estabelecem distâncias, se abandona a casa paterna. Por Jesus sabemos que o Pai continua nos esperando nossa volta. A Conversão é toda decisão ou inovação que de alguma forma nos aproxima da vida divina e nos torna mais conformes a ela para que sejamos mais humanos e mais irmãos com os outros. A conversão conduz as pessoas juntas à maturidade espiritual, que se reflete em sua aversão ao mal e sua atração pelo bem.

Por isso, esta conversão não deve ser superficial, por interesse ou para evitar o castigo. A conversão não deve ser passageira ou pontual “como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz”. Quantas vezes os israelitas se converteram desse jeito e logo voltavam a pecar.

Deste vez o profeta Oseias quer que a conversão seja levada a sério. A conversão não consiste em ritos exteriores e sim em atitudes interiores: “Quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos”. Desta maneira, Deus vai ajudar os israelitas: “Certa como a aurora é a sua vinda, ele virá até nós como as primeiras chuvas, como as chuvas tardias que regam o solo”. Com esta imagem, o profeta Oseias quer nos dizer que a ação de Deus faz fecunda a atividade humana, desde que o homem esteja aberto como a terra aberta para a chuva que cai. O homem só, com seus recursos sozinhos, se evapora, se desvanece e se empobrece, “como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz”. Este empobrecimento se manifesta em holocaustos e sacrifícios, isto é, em uma piedade coberta de uma idolatria (cf. Os 5,11). Seu ponto alto é a opressão, a própria aflição e a aflição alheia, e a morte. É desta maneira que o homem sente a ausência de Deus. Por outro lado, a busca de Deus e seu amor pelo homem (conhecimento de Deus, v.6b) refletem-se no amor ao outro, ao próximo que leva o homem à vida, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

A chamada do profeta Oseias para a conversão soou hoje para nós, e não somente para o povo de Israel: "Vamos voltar ao Senhor". Ele nos convidou para conhecer melhor a Deus. O profeta nos convida a organizar nossa vida muito mais de acordo com as atitudes internas - misericórdia com os outros - do que com os atos externos (ritos exteriores). Somente assim, a Quaresma será uma aurora de luz e uma fonte de nova vida.

Nossa conversão quaresmal está sendo interior, séria e sincera? Ou teremos a mesma experiência de tantos anos em que também decidimos voltar aos caminhos de Deus e depois fomos fracos e voltamos aos nossos próprios caminhos de pecado?  Vamos recordar aquilo que o autor da Segunda Carta de São Pedro: “Com efeito, se, depois de fugir às imundices do mundo pelo conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, e de novo são seduzidos se deixam vencer por elas, o último estado se torna pior do que o primeiro” (2Pd 2,20).

Crer em Deus, aceitá-Lo em nossa vida, significa busca-Lo para caminhar com Ele em uma autêntica Aliança de amor, e para sermos fieis a Sua Palavra na riqueza e na pobreza, na saúde e na enfermidade todos os dias de nossa vida, e não somente com um amor comparado a uma nuvem pela manhã ou como orvalho matinal que se evapora. Voltar para o Deus da ternura e misericórdia é para nos tornarmos mais amorosos, tenros, misericordiosos para com os outros. Ternura é amor respeitoso, delicado, concreto, atento, alegre. Ternura é amor sensível, aberto à reciprocidade, não ganancioso nem pretensioso nem possessivo, mas forte na sua fraqueza, eficaz e vitorioso, desarmado e desarmante. A ternura supõe a capacidade de participar nas alegrias e nas tristezas da humanidade convivendo com cordialidade recíproca. Tratemos de que esta Quaresma nos ajude a vivermos nossa proximidade a Deus da ternura e da misericórdia com um autêntico compromisso de fé. “Quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos”! “Quero amor”, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

Sejamos Humildes Até Nas Nossa Orações

Oração é um dos temas preferidos do evangelista Lucas. Lucas é o evangelista da oração. Ele é o único evangelista que inicia (Lc 1,8-10) e termina (Lc 24,53) seu evangelho com o tema da oração. É ele quem mais nos apresenta Jesus orando, principalmente nos momentos decisivos de sua vida: no Batismo (Lc 3,21), na escolha dos discípulos (Lc 6,12), na profissão de fé de Pedro (Lc 9,8), na transfiguração (Lc 9,28s), no Getsêmani (Lc 22,39-46) e na cruz (Lc 23,34.46). Jesus também ensina os discípulos a orar (Lc 11,1ss). No evangelho de Lucas podemos encontrar as orações mais conhecidas e citadas pela Igreja: o Magnificat (Lc 1,46-56); o Benedictus (Lc 1,67-79); o Glória (Lc 2,14); o Nunc Dimittis (Lc 2,29-32). Além disso, Lucas ainda conta três parábolas sobre a oração (Lc 11,5-13;18,1-8;18,9-13). E na sua segunda obra (nos Atos) Lucas nos fala novamente deste tema. Ele nos apresenta a Comunidade Primitiva como uma comunidade orante (At 1,14;2,42). A oração está presente nos momentos mais importantes da Igreja Primitiva (At 1,24;8,15;11,4;12,5;13,2;14,23).

O texto do evangelho de hoje fala da oração de um publicano humilde e de um fariseu arrogante. Sobre a oração o Novo Catecismo da Igreja Católica diz: “A oração é um dom da graça, mas pressupõe sempre uma resposta decidida da nossa parte, porque o que reza combate contra si mesmo, contra o ambiente e, sobretudo, contra o Tentador, que faz tudo para retirá-lo da oração. O combate da oração é inseparável do progresso da vida espiritual. Reza-se como se vive, porque se vive como se reza” (Compêndio do Novo Catecismo, 572; Novo Catecismo, no. 2725).

Não nos esqueçamos: o Tentador quer nos tirar da oração, pois rezar é conversar com Deus. E o Tentador não quer que conversemos com Deus. Quem não rezar (quem não conversar com Deus), pode acabar conversando com o adversário (satanás) ou com o diabo (aquele que cria a desunião e divisão). Além disso, quem não conversa com Deus, gosta de falar de si próprio (egolatria). Quem conversa com Deus permanentemente, torna-se mais humano ou se humaniza. Quem se humaniza, torna-se irmão do outro. A oração nos serena, pois confiamos totalmente n’Aquele que torna tudo existir e possibilita o que é impossível (cf. Lc 1,37). Quanto mais crescermos na espiritualidade, mais rezaremos, pois “O combate da oração é inseparável do progresso da vida espiritual”. A verdadeira oração nos torna mais humildes ou mais nós mesmos. A oração potencia nossa humanidade.

Estamos na parte do evangelho de Lucas na qual se fala do caminho de Jesus para Jerusalém onde será morto e ressuscitado (Lc 9,58-19,28). Jesus está na etapa final de seu caminho (Lc 17,11-19,28). Durante esse caminho Jesus dá muitas lições importantes para seus discípulos.

Na passagem do evangelho deste dia Jesus continua a enfatizar sobre a importância da oração perseverante e humilde (Lc 18,1-14) que se iniciou na passagem anterior deste texto. Para falar da oração humilde Jesus conta uma parábola na qual ele coloca em confronto dois tipos de atitude diante de Deus representados por um fariseu e um publicano, como protagonistas da parábola: o fariseu que se elogia desprezando o outro, e o publicano que simplesmente pede a misericórdia de Deus sem desprezar ninguém, porque ele tem consciência de seus pecados.

O texto começa com esta afirmação: “... alguns confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros”. Quem confia na própria justiça despreza os outros para apreciar a si próprio. Quem está cheio de si e centrado no próprio eu(ego), não tem espaço nem para os outros nem para Deus. Arrogância e desprezo sempre andam inseparáveis. O arrogante se fecha ao Pai celeste; quem despreza, fecha-se aos irmãos.        

Na “oração” do fariseu, Deus ficou esquecido e somente o EU predomina: Eu não sou como os demais, eu jejuo, eu pago o dízimo. A arrogante consciência de ter feito alguma coisa, o faz acreditar que Deus se tornou seu Devedor, mas é inútil. Ele abusava da oração para demonstrar sua própria grandeza a fim de se colocar em destaque diante dos demais. É um verdadeiro exibicionista. O exibicionismo é a linguagem que demonstra a ausência de um valor. Quando um valor cresce na experiência espiritual de uma pessoa, ela ama discrição, que é a linguagem do tesouro escondido, e se comunica pelo caminho da simplicidade e da discrição. Toda a arrogância é contra ao amor fraterno que é essencial para uma convivência mais humana.        

É curioso comprovar que os santos, os que estão de verdade mais perto de Deus, se consideram sempre uns grandes pecadores, pois eles compreendem verdadeiramente o que o pecado significa. Somente à luz de Deus é possível reconhecer a própria miséria. O aproximar-se de Deus consiste em perder ou em abandonar nosso egoísmo e autossuficiência para encontrar a felicidade de Deus. 

Na parábola o publicano se sente pequeno, não se atreve a levantar os olhos ao céu, e por isso, sai do templo engrandecido. Reconhece-se pobre e por isso, sai enriquecido. Reconhece-se pecador e por isso, sai justificado. Com razão o Livro de Eclesiástico afirma: “Quem serve a Deus como Ele o quer, será bem acolhido e suas súplicas subirão até as nuvens. A prece do humilde atravessa as nuvens” (Eclo 35,20-21).                

Somos fariseus quando vamos à igreja não para escutar Deus e suas exigências, mas para convidá-Lo a nos admirar pelo bom que somos. Somos fariseus quando esquecemos a grandeza de Deus e nosso nada, e cremos que as virtudes próprias exigem o desprezo dos demais. Somos fariseus quando nos separamos dos demais e nos cremos mais justos, menos egoístas e mais puros/limpos que os outros. Somos fariseus quando entendemos que nossas relações com Deus têm de ser quantitativas e medimos somente nossa religiosidade pelas missas das quais participamos e não pelo amor que vivenciamos com os demais. A vaidade nos faz perder tempo em coisas fúteis e sem valor. 

O evangelho deste dia nos chama a nos vestirmos da humildade. E para que nos mantenhamos humildes jamais podemos nos esquecer que quem presencia nossa vida e nossas obras é o próprio Senhor a Quem temos que procurar agradar em cada momento. Se não estivermos vigilantes nisso, a soberba vai nos dominar. E a soberba tem manifestações em todos os aspectos de nossa vida: faz-nos susceptíveis, injustos em nossos juízes e em nossas palavras e ações, faz-nos crer melhores do que os demais e negar as boas qualidades dos outros e a soberba nos convence ter virtudes que não possuímos.

O Senhor se comove e esbanja suas graças diante de um coração humilde. A soberba é o maior obstáculo que o homem põe diante da graça de Deus. A soberba é o vício capital mais perigoso: se insinua e tende até infiltrar-se até nas boas obras. Por causa da soberba as boas obras perdem até seu mérito sobrenatural, pois as boas obras praticadas são uma participação na bondade de Deus.

Nossa oração deve ser como a do publicano: humilde, atenta, confiada, procurando que não seja monólogo em que damos voltas a nos mesmos, às virtudes que cremos possuir. A humildade é o fundamento de toda nossa relação com Deus e com os demais. Por isso, a humildade atrai a bênção de Deus e a simpatia dos homens. 

Sabendo que todos nós somos pecadores não podemos desprezar aqueles que vivem dominados pela maldade, pelo vício e assim por diante. Deus ama os pecadores e odeia o pecado. Por isso, o Senhor tomou nossa natureza humana para nos salvar e nos levar junto de Si como Seus amados. Por isso, fica a pergunta: temos rezado por as pessoas que vivem dominadas por algum vício e alguma maldade? Sejamos compassivos nas nossas orações por essas pessoas, pois quem é compassivo e justo brilhará com a mesma Luz de Deus para os demais. Sejamos um sinal de Cristo, Luz do mundo, dando-lhes nosso afeto, carinho e a caridade cristã. Rezemos/oremos uns pelos outros, principalmente nesta Quaresma, para que o amor de Deus e sua salvação cheguem a todos. ”Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos” (Victor Hugo) 

Sempre que nós rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz não porque modificamos Deus, mas porque nos modificamos, assim saímos diferentes do que entramos do templo.        

Reflita o que São Paulo escreveu: “Verdade é que a minha consciência de nada me acusa, mas nem por isto estou justificado; meu juiz é o Senhor” (1Cor 4,4). “As melhores e as mais lindas coisas do mundo não se pode ver nem tocar. Elas devem ser sentidas com o coração” (Charles Chaplin).

P. Vitus Gustama,svd

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