sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Bem-Aventurada Virgem Maria Das Dores, 15/09/2026

BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA DAS DORES

 

15 de Setembro

I Leitura: Hb 5,7-9

 7 Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus. 8 Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu. 9 Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem. 

Evangelho: Jo 19, 25-27

Naquele tempo,25 perto da cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. 26 Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, este é o teu filho”. 27 Depois disse ao discípulo: “Esta é a tua mãe”. Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo.

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Celebramos hoje a memória da Bem-aventurada Virgem Maria Das Dores. Mãe, Dor e a Cruz. Nenhum coração de qualquer  filho deseja um alto nível de dor, sofrimento ou dificuldades para sua mãe, embora a dor seja inevitável.

Nenhum cristão se alegra com a dor de Maria, a Mãe de Jesus, mas todos reconhecem o imenso valor das espadas que transpassaram seu coração, das lágrimas em seus olhos, da névoa de mistério que obscurece a luz e do Calvário onde Jesus se ofereceu por nós.

Maria Santíssima, Mãe de Jesus (e também nossa), uniu-se em corpo e alma à ação redentora de seu Filho; e no caminho da redenção, desfrutou das delícias do amor mais puro, e sofreu as amargas dores de sua paixão e morte, como lhe anunciou o ancião Simeão no dia da Apresentação de Jesus no Templo.

A festa de Nossa Senhora das Dores foi celebrada em toda a Igreja em 1727 por ordem do Papa Bento XIII. O Papa Pio VIII publicou um decreto de 18 de setembro de 1814 para autorizar a celebração da festa para todo o mundo católico.                                                                                                                                  

No dia anterior celebramos a festa da Exaltação da Santa Cruz (14/9). Hoje (15/9) nos encontramos com Maria das Dores, mãe de Jesus. Os dois acontecimentos- Exaltação da Santa Cruz e Maria das Dores- nos mostram a união profunda entre Jesus, como filho, e Maria como mãe até as ultimas consequências, como afirmou o Concílio Vaticano II na Constituição Dogmatica Lumen Gentium: “A bem-aventurada Virgem avançou no caminho da fé, e conservou fielmente a união com seu Filho até a cruz, junto da qual, por desígnio de Deus, se manteve de pé (cf. Jo 19,25); sofreu profundamente com o seu Unigenitao maternal ao seu sacrifício...” (n.58).

Este fato, isto é, a união profunda entre Jesus, como filho, e Maria como mãe, na verdade, nós experimentamos no nosso cotidiano. Ninguém fica feliz sozinho como também ninguém sofre sozinho, pois não somente vivemos, mas convivemos. A felicidade de um filho é a felicidade de uma mãe ou de um pai. O sofrimento de um filho é o sofrimento de uma mãe ou de um pai. Diante de um filho sofredor uma mãe ou um pai vai procurar até os últimos recursos de sua vida a fim de que o filho volte a ser recuperado. Mesmo que se sinta impotente diante da dor do filho, uma mãe ou pai procura outro recurso sobre-humano: a oração. É dificilmente encontrar uma mãe ou um pai que fuja da dor de um filho. Mãe e pai sofrem com o filho, pois para uma mãe/um pai, o filho ou a filha é ela própria/ele próprio.

Maria, sofrendo, se encontra ao pé da cruz de Jesus, seu filho. A dor é a companheira inseparável de nosso peregrinar durante esta vida terrena. Ela aparece pelo caminho de nossa existência e se põe ao nosso lado. Cedo ou tarde ela vai bater na nossa porta. Ela não nos pede permissão para entrar. Ela entra e sai como se fosse um dos membros de nossa família.

A vida de Maria esteve profundamente marcada pela dor e pela fé em Deus. Maria experimentou a dor diante das palavras de Simeão (cf. Lc 2,34-35). Mas no seu coração não mora nenhum desespero. Na profundeza de sua alma reina a paz e a esperança em Deus. Em seu coração volta a ressoar com força e segurança seu Fiat cheio de amor na anunciação: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

Maria experimentou a dor do assassinato dos inocentes por Herodes, o Grande, pois Maria também era mãe (cf. Mt 2,16-18). Seguramente Maria conhecia muitos desses inocentes sacrificados em nome da crueldade de um poder sem limites de Herodes. Certamente Maria rezava por esses inocentes e sobretudo, por suas mães inconsoláveis. Nosso coração há de mostrar-se sensível ao sofrimento alheio, compadecer-se para socorrer, pelo menos para consolar, e rezar para aliviar.

Maria experimentou a dor da perda do filho de 12 anos de idade em Jerusalém (cf. Lc 2,41-52). “Onde ele está?  Está em perigo? Alguém o raptou ou o matou?”. Tudo isso passava na cabeça de Maria. Qualquer mãe sofre pela perda de um filho ou de uma filha. E como sofre! Quantas mães continuam a esperar a volta de um filho perdido e continuam a esperar sua volta. Maria sofria durante três dias da procura de seu filho, Jesus. Mas como uma mulher “cheia de graça” (Lc 1,28), com certeza, acreditava em Deus apesar de tudo. Ela quer entender o significado das palavras de seu filho: “Por que me procurais?” e tenta meditar essas mesmas palavras no seu coração. Nem sempre podemos entender o significado de cada acontecimento ou de cada experiência. Muitas vezes, depois de algum tempo é que podemos entender seu significado.

Maria também experimentou a dor da separação e da solidão. Chegou o dia de despedida depois de passar trinta anos juntos: mãe e filho! Trinta anos de experiências inesquecíveis vividos num ambiente inacreditavelmente divino e incrivelmente humano em Nazaré. Trinta anos de silêncio, de trabalho, de oração, de alegria, de entrega mútua. Trinta anos de uma família unida e maravilhosa. Abundantes e intensos sentimentos. “Adeus, filho...! Adeus mãe...!”. Todos nós intuímos o que passa pelo coração da mãe em uma despedida assim. Já vimos nos olhos de nossa mãe sua reação imediata ao sentir este tipo de experiência. Maria experimentou a solidão da ausência de seu filho. A solidão é um dos sofrimentos bastante profundos dos seres humanos, pois nascemos para viver em companhia dos demais. Como dura foi a solidão de Maria. Maria também soube viver esse sofrimento da separação e da solidão com amor, com fé, com serenidade interior. Ofereceu esse momento pelo seu filho que começou sua vida pública. Necessitamos, como Maria, ser fortes na solidão e nas despedidas. Fortes pelo amor, fortes pela fé e pela confiança em Deus e fortes pela oração.

Maria também experimentou a dor da paixão do filho (via crucis). Ela viu o filho carregar a cruz para o Calvário. Que momento tão duro para uma mãe ver o filho sofrer assim! Ao mesmo tempo, que fortaleza interior que Maria tem nesse momento! Muitos dos seus discípulos abandonaram Jesus, seu mestre. Mas a mãe jamais abandonaria seu filho no seu sofrimento. Ali ela estava, perto de seu filho, ao pé da cruz. Os dois se olham no silêncio de fortaleza. A nossa vida é, às vezes, uma via crucis. Busquemos o olhar amoroso de Maria. “A suave Mãe nos consola, transforma nossa tristeza em alegria e nos fortalece para carregar nossas cruzes” (Luis Monfort Grignion).

Por fim, Maria experimentou a dor da morte de seu filho. Terrível episódio! É uma mãe que vê seu filho morrer terrivelmente na cruz. Com o coração sangrento, de pé diante da cruz, Maria repetiu mais uma vez, sem palavras, na mais pura das obediências: “Faça-se a Tua vontade!”.

Mas crendo, confiando e amando, Maria soube esperar a maior alegria de sua vida: a ressurreição. A volta de seu filho na gloria da ressurreição.

Perto da cruz de Jesus, estava de pé a sua mãe...” (Jo 19,25). Esta presença significa fidelidade até as ultimas conseqüências, até a morte. Nós nos acostumamos ver em Maria, sobretudo na Semana Santa, como a Virgem dolorosa. No entanto, a tradição cristã nos recorda que Maria é uma mãe valente que se mantém firme de pé junto à cruz. Isto quer dizer que ela não se deixa derrubar pela dor. Ela está de pé. Para estarmos de pé diante da vida com todos os seus acontecimentos e contratempos, temos que nos habituar a ficarmos de joelho diante de Deus, pois nossa verdadeira força está em Deus.

Maria é protótipo da atitude de valor em meio ao sofrimento. Mas não se trata de qualquer valor. Trata-se do valor sustentado pela esperança. O coração de Maria nunca fica vazio de esperança. Por isso, a comunidade cristã recorda Maria neste dia como a mãe fiel que acompanha seu Filho até a morte na cruz, ainda que esteja no meio da máxima dor.

Nós cristãos devemos ser pessoas de esperança e pregadores de esperança. Ao entregar sua mãe para nós como nossa mãe, através de São João, Jesus quer que devamos ter os mesmos sentimentos de Maria. Com Maria podemos confiar sempre em Deus que nos ama, que nos anuncia, com a ressurreição de seu Filho, nossa própria ressurreição. Também nosso espírito pode se alegrar pela esperança que Deus da vida sustenta para nós, ainda que estejamos cercados pela dor.

Perto da cruz de Jesus, estava de pé a sua mãe...”. Esta presença significa fidelidade até as ultimas conseqüências, até a morte. Nos acostumamos ver em Maria, sobretudo na Semana Santa, como a Virgem dolorosa. No entanto, a tradição cristã nos recorda que Maria é uma mãe valente que se mantém firme de pé junto à cruz. Isto quer dizer que ela não se deixa derrubar pela dor. Ela está de pé. Maria não gritou. Maria não atraiu a atenção para si. Maria estava lá, de pé e não prostrada. Ela estava de pé perto da cruz olhando para Jesus, seu filho.

Maria nos ensina a nos esquecermos totalmente de nós para ter um olhar mais atento para o outro numa atitude de um puro acolhimento do sofrimento do outro. Esta atitude se chama compaixão. Compadecer-se não é apiedar-se pelo sofrimento do outro. É sentir com o outro a mesma dor para depois tomar atitude para aliviar essa dor mesmo que seja uma parte dela.

“Jesus disse à mãe: ‘Mulher, este é o teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Esta é a tua mãe’. Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo”. A mãe de Jesus será sempre mãe e sempre mulher. Essa maternidade jamais será reduzida a um personagem histórico. Maria continua sendo a mãe para todos os que o discípulo amado representa. É a mãe de toda comunidade de fé e de todos os discípulos amados de Jesus, pois Maria e a pequena comunidade de discípulos juntamente ao discípulo amado representam todos os que seguem a Jesus até o fim, até perto da cruz, demonstrando coragem e fidelidade que nenhum dos servidores de Jesus manifestou.

Maria nos ensina que, para quem põe sua confiança em Deus e deixa que seja o Espírito divino que conduz sua vida é possível estar de pé diante da cruz encontrada no caminho desta vida ou a cruz fruto da fidelidade aos valores cristãos vividos até as ultimas conseqüências. A verdadeira dor cristã é o verdadeiro preço do amor aos demais, como Jesus que foi crucificado por causa do amor. O verdadeiro cristão jamais pode ser o causador da dor para os outros. O verdadeiro cristão jamais envenena o ambiente. O verdadeiro cristão jamais pode ser pregador da desgraça nem pode causar a angústia para os demais. O cristão é chamado a ser compassivo, isto é aquele que alivia a dor dos outros. Infelizmente, muitos que se dizem cristãos, que rezam supostamente, ao sair da igreja, se tornam espalhadores das coisas negativas na esquina, na rua, no salão de beleza, no grupo, no trabalho, em casa, em vez de serem proclamadores da esperança, de boa notícia e do amor. Quem prega ou espalha coisas negativas vai atrair mais coisas negativas para sua vida e para toda sua família. Quem prega a bênção, vai atrair mais as bênçãos para sua vida e para sua família. Ser cristão, a exemplo de Maria, é gestar Jesus no coração para dá-Lo aos irmãos.        

P.Vitus Gustama,svd

 

As provações que suportamos podem e devem revelar-nos quais são as nossas forças. Você possui forças que provavelmente desconhece. Encontre a que necessita nesse momento. Use-a!” (Epicteto)

Exaltação Da Santa Cruz, Festa, 14/09/2026

EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

14 de Setembro

I Leitura: Nm 21,4b-9

Naqueles dias: 4 Os filhos de Israel partiram do monte Hor, pelo caminho que leva ao mar Vermelho, para contornarem o país de Edom. Durante a viagem o povo começou a impacientar-se, 5e se pôs a falar contra Deus e contra Moisés, dizendo: "Por que nos fizestes sair do Egito para morrermos no deserto? Não há pão, falta água, e já estamos com nojo desse alimento miserável". 6 Então o Senhor mandou contra o povo serpentes venenosas, que os mordiam; e morreu muita gente em Israel. 7 O povo foi ter com Moisés e disse: "Pecamos, falando contra o Senhor e contra ti. Roga ao Senhor que afaste de nós as serpentes". Moisés intercedeu pelo povo, 8e o Senhor respondeu: "Faze uma serpente de bronze e coloca-a como sinal sobre uma haste; aquele que for mordido e olhar para ela viverá".  9 Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e colocou-a como sinal sobre uma haste. Quando alguém era mordido por uma serpente, e olhava para a serpente de bronze, ficava curado.

II Leitura:  Fl 2,6-11

6Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, 7mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, 8humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz. 9Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome. 10Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, 11e toda lingua proclame: 'Jesus Cristo é o Senhor', para a glória de Deus Pai.

Evangelho: Jo 3,13-17

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 13 “Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. 14 Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, 15para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna.16 Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. 17 De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”.

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“A cruz é o instrumento para levantar aqueles que caem, o apoio para os que mantêm em pé, o bastão dos débeis, o guia dos que se extraviam, a meta dos que avançam, a saúde da alma e do corpo. Afugenta todos os males, acolhe todos os bens, é a morte do pecado, a semente da ressurreição, a árvore da vida eterna

(São João Damasceno). 

“Ao olhar para a cruz de Jesus, sabemos do quanto Deus nos amou. Ao participamos da eucaristia, sabemos do quanto Deus nos ama

(Madre Teresa de Calcutá).

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Celebramos neste dia a Festa da Exaltação da Santa Cruz. A cruz sobre a qual Jesus sofreu era, originariamente, o instrumento material de sua execução. Mas já na época apostólica a cruz se transforma em símboloda morte sacrifical de Jesus. Assim são Paulo pode falar da força da cruz de Cristo (1Cor 1,17) e afirma que a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem e que muito se comportam “como inimigos da cruz(Fl 3,18).

A cruz é a conseqüência de um amor apaixonado De Deus pela humanidade. Ao olhar para a cruz de Jesus logo sabemos o quanto Deus nos amou. O nosso Deus é realmente um Deus apaixonado pelo ser humano: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único para que o mundo seja salvo(Jo 3,16). O nosso Deus é, realmente, amor (1Jo 4,8.16). Minha vida, de fato, tem sentido, pois seu preço é o amor levado ao extremo: a morte no cruz. Sou lavado das minhas culpas e pecados pelo sangue de Jesus derramado na Cruz.

Além disso, a cruz é o fruto de uma obediência ou fidelidade incondicional de Jesus ao projeto de Deus. Obedecer é criar relações; é atender ao convite de outrem. Obedecer é fazer próprias as necessidades do(s) outro(s). A obediência é a resposta a uma solicitação ou proposta que vem de fora, do outrem. E nãoobediência sem fidelidade ao projeto assumido.  Neste sentido e no sentido do próprio termo, a obediência não tem nada a ver com coisa imposta, pois a imposição tira a liberdade e cria o medo. A imposição aterroriza qualquer subordinado, e, conseqüentemente, cria um relacionamento falso. E na imposição nãodiálogo, há apenas ordem para ser obedecida e cumprida. Na imposição nãoamor, somente medo e terror. A obediência de Jesus é uma obediência baseada no amor e voltada unicamente ao cumprimento da vontade do Pai que é a salvação dos homens por amor. Jesus assumiu a cruz em sinal de fidelidade ao amor.

Também a cruz é um produto terrível do pecado, se a encaramos da perspectiva humana. Da cruz sabemos que o preço do pecado é a morte. Jesus morreu porque o ser humano não tolera a defesa do pobre, nem o desvelamento da hipocrisia, nem a denúncia da injustiça, nem a ruptura das convenções e privilégios sociais e religiosos. Jesus morreu porque era bom e se colocou, do lado dos oprimidos, dos indefesos, dos abandonados, dos inocentes, dos marginalizados e empobrecidos por um sistema que explora, sem retroceder diante das conseqüências; porque foi fiel a sua missão, dando-se sem reservas, sem guardar nada para si, nem sequer o mais valioso: sua própria vida. Se não entendemos desta maneira, a morte de Jesus, a Cruz de Jesus fica sem sentido para nós.

A Festa da Exaltação da Santa Cruz nos convida a contemplar o significado da cruz de Jesus para todos os cristãos em todos os tempos e lugares. O que significa a cruz a partir de Jesus e o que representa a cruz a partir dos homens? Quando descobrirmos o sentido da cruz de Jesus, teremos mais consciência em fazer o sinal cruz e em levar a sério os ensinamentos de Cristo. A exaltação da Santa Cruz há de ser, para nós, ocasião de fazer memória, de recordar e proclamar muito alto: que Cristo foi exaltado na cruz e que todos os que são de Cristo não podem ser ambiciosos pelo poder e gloria mundanos.  Se vivermos como cristãos, estaremos sempre com Jesus na cruz, na oposição.

O texto do Livro dos Números (Nm 21, 4-9) fala da desobediência do povo eleita a Deus. O povo de Israel duvidava da existência de Deus por causa do sofrimento no deserto. Este estado de dúvida em nossas relações com Deus aparece na nossa vida quando nos sentirmos excessivamente esmagados pelo peso de nossas preocupações e sofrimentos. Isto acontece também até nos cristãos mais generosos e nos evangelizadores/missionários mais ardentes.

O fruto dessa desobediência é a mordida ou picada mortal pela serpente. Se a desobediência a Deus leva à morte, a obediência a Deus à salvação e à vida. O que mata definitivamente não é a serpente e sim a desobediência a Deus; da mesma maneira somente pode dar a vida a aceitação da vontade de Deus, simbolizada neste caso pela serpente de bronze. 

O evangelista João viu na serpente de bronze uma imagem profética de Jesus cravado no madeiro (Jo 3, 14-21)  . Os que voltarem seu olhar com fé para Jesus e vivendo o estilo de vida de Jesus, se salvarão. A serpente de bronze levantada por Moisés sobre uma haste no meio de acampamento passa a ser protótipo de Jesus, levantado sobre o madeiro da cruz. Todos os israelitas, que foram castigados pelas suas rebeldias contra Deus e sua vontade, mordidos pelas serpentes venenosas, ao olhar para a serpente de bronze, se curavam. Assim também todos aqueles que seduzidos pela serpente de diabo, discorrem pelo caminho de pecado serão salvos também, se converterem-se e voltarem a olhar para a cruz de Jesus onde se encontra a prova mais extrema do amor de Deus pela humanidade. 

Por isso, são João nos diz: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Esta é a credencial de Deus e com ela se apresenta desde a primeira até a última página da Bíblia. A resposta para o porquê da criação, da encarnação e da redenção é o amor de Deus por todos nós. O plano de salvação não tem outro fundamento que o incompreensível amor de Deus por nós todos e por cada um de nós em particular. Por amor anda Deus em nossa busca pelos caminhos do mundo. É um Deus que não tem medo de sacrificar até o próprio Filho para resgatar todos nós, pecadores e perdidos. O homem nenhum na face da terra sacrificaria seu próprio filho para resgatar os outros. Somente Deus. Deixar de olhar para Deus que se encarna em Jesus será para nós uma perdição eterna e será para nós uma infelicidade sem fim. Levado por seu amor, Deus salta o abismo que nos separava dele e se aproxima de nós para nos dar o que mais quer: seu “único Filho”. Mais ainda, entregou seu único Filho à morte para que todos nós tenhamos vida. E esta vida dada por nós se renova na Eucaristia para que sejamos um dom para os outros, para que façamos o bem também para os outros. Jamais um cristão pode fazer o mal ou ser cúmplice do mal. 

O melhor comentário para este texto de Jo 3,16 é a primeira carta de São João 4,18-21: No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor. Mas amamos, porque Deus nos amou primeiro. Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão”.  Será que amamos realmente Deus?

A cruz foi para Jesus a vontade do Pai levado até ao extremo. Foi para Jesus a ultima palavra e a mais eloqüente. Foi para Jesus pôr-se no ultimo lugar e prestar o melhor serviço a todos os homens, pois veio para servir e não para ser servido. E para servir ter que pôr-se no ultimo lugar. Por isso, a cruz foi também o trono da exaltação de Jesus, Sua glória. Por isso também, Jesus recebeu na cruz o nome-sobre-todo-nome. A cruz é a justiça de Deus contra a justiça do mundo, dos poderosos. 

Além disso, a cruz é um produto terrível do pecado (injustiça, desigualdade, desamor, ódio, desonestidade, egoísmo, discriminação, exclusão, exploração e assim por diante), se a encaramos da perspectiva humana. Da cruz sabemos que o preço do pecado é a morte. 

Por outro lado, a cruz é a manifestação do amor levado até as últimas conseqüências, se a olhamos da perspectiva de Cristo. Sabemos que somos fracos, pecadores, mas Jesus se identificou com o nosso sofrimento e morte, embora não tenha sido igual a nós no pecado. Porque Jesus se identificou conosco e suportou sofrimento e morte (Mt 8,17), tornou possível que participássemos na sua ressurreição e na sua vida através do Batismo e dos outros sacramentos. Sem a cruz seria muito difícil convencer o ser humano do amor de Deus, e mais ainda de seu apaixonado interesse por nos salvar. Mas, a partir dela, será sempre possível dizer ao ser humano que a sua cruz tem um sentido, e que a última palavra é “salvação”. O doente, o maltratado, o pobre e o empobrecido, o acusado de blasfêmia injustamente, o incompreendido, o encarcerado injustamente, o torturado etc., todos eles têm na cruz de Cristo uma força. Esse é o duplo significado da afirmação de São Paulo: Jesus morreu por nossos pecados (1Cor 15,3).

Somente olhando para o alto, para Deus, o homem encontra o sentido da sua existência. Só do alto vem a luz que dá sentido à alegria e à dor, às vitórias e às derrotas, à solidão e à morte. Olhar para Jesus na cruz significa aceitar com fé a mensagem que ele dirige para todos os cristãos. Crer, aqui, significa identificar a própria vida com a de Cristo. Este é o caminho para alcançar a vida do alto, a salvação.

A cruz, considerada em si mesma, não tem valor salvífico. Ela passou a ser salvadora por causa do amor de Jesus por nós todos levado e vivido até as ultimas conseqüências.

Por isso, para não entendermos erradamente a expressão “Exaltação da Santa Cruz”, devemos saber que Deus não queria a cruz: como iria querer semelhante desventura e ignomínia para Seu Filho “bem amado”? (Mt 3,17; 12,18;17,5; Mc 1,11; Lc 1,35). E tampouco Jesus a quis: “Meu Pai, se é possível, afasta-se de mim este cálice” (Mt 26,39; Mc 14,36; Lc 22,42). 

Nesta festa da exaltação da Santa Cruz lemos a seguinte frase do evangelho de São João: “... Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

Deus amou tanto o mundo...”. Esta é a credencial de Deus e com ela se apresenta desde a primeira página da Bíblia. Por amor Deus anda em nossa busca. Deus não é Aquele que julga, e sim Aquele que salva. Levado por seu amor ao mundo, Deus salta o abismo que nos separa dele e se aproxima de nós para nos dar o que mais quer e mais valioso: Seu único Filho. Nisto se manifesta que Deus é amor. O melhor comentário para este texto é 1Jo 4,9-10: Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado ao mundo o Seu Filho único, para que vivamos por Ele. Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos ele amado, e enviado o Seu Filho para expiar os nossos pecados”.

Jesus é, então, a encarnação do amor do Pai por nós. Ele nos amou até o fim (cf. Jo 13,1). Toda a vida de Cristo é mistério de redenção. A redenção nos vem pelo sangue de Cristo da cruz (cf. Ef 1,7; Cl 1,13-14; 1Pd 1,18-19), mas este mistério está atuando em toda a vida de Cristo: já em Sua encarnação porque fazendo-se pobre nos enriquece com Sua pobreza (cf. 2Cor 8,9); em Sua vida oculta onde repara nossa insubmissão mediante sua submissão (cf. Lc 2,51); em Sua palavra que purifica nossos ouvidos (cf. Jo 15,3); em Suas curas pelas quais “Ele tomou as nossas enfermidades e sobrecarregou-se dos nossos males” (Mt 8,17; cf. Is 53,4); em Sua ressurreição pela qual somos justificados (cf. Rm 4,25). 

“Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. Esta frase é uma síntese bíblica que condensa todo o quarto Evangelho (Evangelho de João). O quarto Evangelho foi escrito para que acreditemos em Jesus, oferta de amor e salvação de Deus para a humanidade, e para que, crendo nele, tenhamos a vida em seu nome (cf. Jo 20,31). E esta oferta tem um motivo, uma finalidade e um meio. O motivo da oferta é o amor apaixonado de Deus pela humanidade: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único”. E a finalidade desta oferta é a salvação da humanidade: “... para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. E o meio para que o amor de Deus chegue até a humanidade é a encarnação de Deus em Jesus Cristo. Jesus é a manifestação tangível do amor do Pai (1Jo 4,9). O objeto da fé em Jo é acreditar em um Deus que nos ama e que este Deus acampou no meio de nós (Jo 1,14).          

A partir da frase acima mencionada sabemos quem é Deus? Muitas definições foram feitas sobre Deus tanto a partir da filosofia como da teologia em geral e outras disciplinas científicas e exatas, mas nenhuma definição mais certa e curta que a de São João: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Esta frase é carregada de mistério e de promessa, toda nossa história. É frase nuclear e radiante. Esta frase, ao meditá-la e vivê-la no dia-a-dia, tem a capacidade de manter a esperança no mundo. Ao compreendê-la e vivê-la, o homem alcançará o mistério da criação, da encarnação e da redenção e por isso, encontrará a chave para abrir o segredo de Deus e da vida: encontrará a chave do sentido e chegará à fonte da vida que é Deus. Se Deus é amor, então amor é a essência da realidade, a última palavra da compreensão, o critério da maturidade e o critério definitivo do juízo (seremos julgados sobre o amor). “Não importa se Deus existe; importa saber que Deus é amor” (Sören Kierkegaard). E a Bíblia dá a garantia disso mesmo que Deus é amor.          

Se Deus é amor, ele não pode deixar de amar. Toda a atividade de Deus é uma atividade amorosa. Ao criar, Ele cria por amor; ao governar as coisas, o faz no amor; quando julga, julga com amor. Tudo quanto faz é expressão de sua natureza, e sua natureza é amar. Amar é dar-se a si mesmo. A entrega do seu Filho único ao homem por parte de Deus é a prova deste amor. Deus dá ao homem o que lhe é mais caro: seu Filho feito carne. Jesus é o amor de Deus feito carne. Nenhum espírito humano teria podido conceber fato semelhante. Deus ama não para completar-se, mas para completar; não para realizar-se, mas para realizar. Deus, amando, não procura sequer a sua glória, mas esta glória nada mais é do que amar o homem gratuitamente a fim de salvá-lo.

A prática do amor (ágape) coloca o homem em total sintonia com a Caridade por excelência: Deus.  Fazemos parte do amor de Deus à medida que crescemos na relação amorosa com as pessoas, por meio da caridade, como diz São Paulo: “Permanecei em concórdia, vivei em paz e o Deus de amor e de paz estará convosco(2Cor 13,11b). Amado, o homem existe e é amado que ele se afirma. Parece um paradoxo, mas é verdade profunda: para o homem, amar a Deus significa antes de tudo deixar-se amar por ele, porque amar a Deus nunca é iniciativa do homem, mas sempre reposta a um dom. É simples o raciocínio de Jesus: o Pai ama o Filho (Jesus) que observou sua vontade. Cristo amou os seus discípulos/seguidores, todos nós, com o mesmo amor que recebia do Pai e no qual os seus, por sua vez, podem permanecer em Jesus, observando o mandamento do amor de seu Mestre. Um pecador, um afastado de Deus, saberá que há um Deus que o busca e que lhe perdoa, se há um irmão que vai em busca dele, por ele se interessa e lhe perdoa em nome do Deus de amor. Um pobre, um doente, um ancião abandonado, descobrirá que há um Pai de amor para ele, se vir um irmão que, em nome de Cristo, a manifestação do amor infinito do Pai, se aproxima dele, divide com ele o seu pão e toma para si um pouco da tristeza dele. O amor de Deus em nós faz-nos solidários e responsáveis uns pelos outros. 

Num mundo acostumado ao comércio, ao preço das coisas, é difícil entender a gratuidade, é difícil entender a ação de Deus que quer dialogar, amar com liberdade a todos, oferecendo a oportunidade de salvação, graça e vida. Nós, na nossa vida cotidiana, damos uma parte de nossa vida, enquanto Deus dá tudo para a humanidade. Por isso, quando ele pedir do homem, Deus não pede muito do homem, mas pede tudo do homem.          

O homem, para acontecer sua realização plena que é a salvação, é convidado a caminhar na direção do “Deus de amor”. O resto equivale a se perder. Basta o homem deixar-se levar por “Deus de amor”, ele terá uma força transformadora na sua vida. E com esta força o homem será capaz de apresentar-se com o aspecto mais compassivo e misericordioso, e falar com o estilo mais humano e viver com outro calor humano na fraternidade.

Ao começar e terminar nossas celebrações e nossas orações particulares fazemos o sinal da cruz. Fazer sinal da cruz significa santificar-se ou consagrar-se. E sua forma é uma cruz e uma invocação trinitária. A Santíssima Trindade é a origem de nossa vida, é a fonte de nossa fecundidade humana e a meta de toda a nossa história. Ao invocar a Santíssima Trindade queremos entrar em comunhão com a fonte da vida para depois entrarmos em comunhão com os irmãos formando a unidade. Marcamos nossa atividade e nosso repouso, nossa alegria e nossas dores com o sinal da cruz e o nome trinitário, e assim vamos realizando nosso ser cristão ao longo de nossa vida. 

A cruz significa sacrifício por amor, é morte para a ressurreição. O sinal da cruz sobre nossas obras significa anular nosso egoísmo e liberar o amor. O sinal da cruz significa renunciar à vaidade, ao prestigio, ao afã de possuir ou de dominar a fim de consagrar a obra para Cristo. É um sacrifício próprio para uma vida mais alta. Um trabalho ou uma obra que se realiza por pura vaidade não pode levar o sinal de cruz, não está crucificado, não está santificado do ponto de vista cristão. Anular o sentido egoísta de uma ação, de um trabalho ou de uma obra é marcá-la com a cruz e é também liberá-la e deixá-la disponível para um dinamismo novo, trinitário em que a verdade está na comunhão, na solidariedade, na fraternidade, na igualdade, na compaixão baseado sobre o amor.

P. Vitus Gustama,svd

Para Meditar:

Eu carrego uma cruz no meu bolso, uma simples lembrança para mim do fato de ser cristão. Esta pequena cruz não é mágica nem muito bonita também, e não significa que ela me proteja de qualquer problema físico. Ela não é para identificação, para todo mundo ver. Ela é simplesmente um entendimento entre mim e meu Senhor. Quando eu coloco a minha mão no bolso para pegar uma moeda ou uma chave, a cruz está lá para me lembrar o preço que Ele pagou por mim. Ela me lembra também de ser agradecido pelas graças recebidas diariamente e de me empenhar em servi-Lo cada vez melhor em tudo aquilo que eu faço e digo. Ela também é uma lembrança diária da paz e do conforto que eu compartilho com todos aqueles que conhecem meu Mestre e se entregam para uma presença. Então, eu carrego uma cruz no bolso lembrando a mim e a mais ninguém que Jesus Cristo é o Senhor da minha vida se assim eu quiser”.

(Robert Kennedy)

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

XXIV Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 13/09/2026

PARA AMAR DE VERDADE TEMOS QUE APRENDER A PERDOAR SEMPRE

XXIV Domingo Comum Do Ano Litúrgico A

I Leitura: Eclo 27,33- 28,9

33 O rancor e a raiva são coisas detestáveis; até o pecador procura dominá-las. 28,1 Quem se vingar encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados. 2 Perdoa a injustiça cometida por teu próximo; assim, quando orares, teus pecados serão perdoados. 3 Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura? 4 Se não tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir perdão dos seus pecados? 5 Se ele, que é um mortal, guarda rancor, quem é que vai alcançar perdão para os seus pecados? 6Lembra-te do teu fim e deixa de odiar; 7 pensa na destruição e na morte, e persevera nos mandamentos. 8 Pensa nos mandamentos, e não guardes rancor ao teu próximo. 9 Pensa na aliança do Altíssimo, e não leves em conta a falta alheia!

II Leitura - Rm 14,7-9

Irmãos: 7 Ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo. 8 Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto, vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor. 9 Cristo morreu e ressuscitou exatamente para isto, para ser o Senhor dos mortos e dos vivos.

Evangelho: Mt 18,21-35

Naquele tempo, 21Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” 22Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. 24Quando começou o acerto, levaram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. 25Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. 26O empregado, porém, caiu aos pés do patrão e, prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo!’ 27Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. 28Ao sair dali, aquele empregado encontrou um de seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’. 29O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo, e eu te pagarei!’ 30Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. 31Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. 32Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. 33Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’ 34O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. 35É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

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O Homem É Perdoado Por Deus Para Perdoar Os Demais Homens, Em Consequência

O rancor e a raiva são coisas detestáveis; até o pecador procura dominá-las. Quem se vingar encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas dos seus pecados. Perdoa a injustiça cometida por teu próximo; assim, quando orares, teus pecados serão perdoados”, assim lemos na Primeira Leitura tirada do livro de Eclesiastico.

Na Bíblia há dois atributos básicos de Deus: a justiça e a misericórdia. Na Bíblia Deus usa muito mais a misericórdia do que a justiça. Por isso, o Papa Bento XVI escreveu na sua encíclica: “O amor apaixonado de Deus pelo seu povo — pelo homem — é ao mesmo tempo um amor que perdoa. E é tão grande, que chega a virar Deus contra Si próprio, o seu amor contra a sua justiça. Nisto, o cristão vê já esboçar-se veladamente o mistério da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo-Se feito Ele próprio homem, segue-o até à morte e, deste modo, reconcilia justiça e amor” (Deus Caritas Est n.10). “Agora o amor já não é apenas um ‘mandamento’, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro(Idem n.1b).

Segundo o autor do Eclesiastico, os que se vingarem contra os outros (cf. Eclo 27,30-28,1), terão que encarar a justiça de Deus. Sobre esta mesma dinâmica podemos entender a mensagem da parábola que lemos no evangelho de hoje (Mt 18,23-35), que fala da importância do perdão prolongado ou estendido, isto é, ao receber o perdão de Deus, o homem tem a obrigação de perdoar os outros. Os que procuram ou suplicam a misericórdia de Deus devem estar dispostos a ser misericordiosos para com os demais homens: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). A misericórdia praticada ou vivida em relação aos demais evita até o julgamento de Deus, como escreveu São Tiago: “O julgamento será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia. A misericórdia, porém desdenha o julgamento(Tg 2,13).

O valor real da ajuda ao inimigo em sua necessidade (Ex 23,4s; Pr 25,21) não se deconhece totalmente no Antigo Testamento. Em nosso texto da Pimeira Leitura se recusa expressamente o espirito vingativo e se promete o perdão aos que sabem perdoar. Nele se antecipa já o que se diz na petição do Pai-Nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido(Mt 6,12; cf. Mc 11,25s; Lc 6,37).

Se Deus Nos Ama Incondicionalmente e Nos Perdoa Permanentemente, Então Não Devemos Limitar Nosso Perdão Aos Demais

Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”. É a pergunta de Pedro como porta-voz dos discípulos. A pergunta de Pedro se refere especificamente aos limites de perdão. Percebe-se nesta pergunta uma experiência de ofensas que ameaçavam os membros da comunidade a romper a sua harmonia.

Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete, deves perdoar o teu irmão”, é a resposta de Jesus à pergunta de Pedro sobre quantas vezes deve perdoar o irmão que peca.        

O Evangelho deste Domingo é a segunda parte do Sermão sobre a Igreja (Discurso sobre a vida comunitária).

Um dos maiores desafios para quem vive em comunidade ou em qualquer tipo de convivência, como também na comunidade de Mt, é o perdão. A sobrevivência de qualquer comunidade humana ou de qualquer convivência depende da capacidade que seus membros têm de perdoar. Sem isto, não há comunidade ou convivência que possa subsistir por muito tempo. O perdão refaz as pontes, encurta as distâncias e desarma os espíritos. Quando a pessoa não perdoar, ela se torna refém do próprio ódio ou rancor, e consequentemente perde a liberdade. O perdão é que possibilita a própria existência e a continuação da comunidade ou de uma convivência. Sem perdão não existe vida fraterna, vida conjugal, vida familiar ou vida comunitária. E de modo especial, devemos estar sempre conscientes de que a comunidade cristã (ou qualquer convivência humana) é constituída de homens ao mesmo tempo santos e pecadores e que só continuam vivos porque Deus renuncia à vingança. Se Deus respondesse às ofensas humanas, às nossas ofensas, eliminando o pecador, sem dúvida nenhuma, boa parte da humanidade deveria desaparecer. Por que nós, seres humanos pecadores temos tanta dificuldade de perdoar, enquanto Deus que é santo tem a facilidade de perdoar? Será não chegamos nem um pouco à santidade de Deus a qual todos nós somos chamados? (Cf. Mt 5,48). Isto nos leva a perguntar ou questionar sobre a autenticidade de nossa vida espiritual. Os exercícios da vida espiritual: as orações, as leituras e as meditações sobre a Palavra de Deus, as missas celebradas ou participadas, têm transformado nossa convivência para uma convivência mais fraterna?           

Na primeira parte do Evangelho deste domingo fala-se da pergunta de Pedro sobre quantas vezes deve perdoar (v.21). A segunda parte é a resposta de Jesus a essa pergunta que se segue com uma parábola (vv.22-34). E termina com a conclusão da parábola(v.35) que fala da correspondência entre o perdão dado e o perdão recebido.          

Os judeus diziam que o máximo de vezes a perdoar era quatro. E quem perdoava sete vezes já era considerado santo. Pedro é generoso porque ele eleva o número para sete, pensando chegar ao ideal de Jesus. O meu mal confessado por estar arrependido torna-se perdão de Deus. O perdão que dou para o outro torna-me imitador do Deus da misericórdia. O perdão é o coração da vida cristã, pois torna-me filho(a) de Deus e irmão dos outros filhos de Deus que é Pai-Nosso.         

Mas qualquer que seja o motivo que leva Pedro a fazer sua pergunta ou a elevar o número quatro para o sete, uma coisa é certa: ele quer como os judeus na época, que Jesus confirme a existência de um limite no exercício da caridade cristã, especialmente no perdão. Um amor que não perdoa não é amor. No perdão celebra-se o triunfo do amor sobre o mal. O amor não nega a realidade do mal, mas supera-a para que o homem encontrado nesse círculo seja salvo. 

É confortador saber quando e onde se pode, com tranqüila consciência, ignorar injunções da caridade cristã, pois é mais interessante saber quando cessam do que onde começam tais obrigações. Parece, de fato, mais que justo que em certo momento possamos dizer: “Basta! Afinal somos homens! Não agüento mais! “Isto nos indica que nós queremos ser o eco do nosso ambiente ou queremos repetir o pensamento de Pedro. Jesus, porém, nos diz que devemos ser o eco daquilo que Deus fez por nós.  O perdão é o espaço que nos damos para nos deixar crescer e transformar. É abrir o futuro para nós mesmos e para o nosso semelhante. E ninguém é homem pelo fato de poder “explodir”, mas pelo fato de poder desenvolver em si e transmitir aos outros aquilo que Deus nos deu. Assim o perdão não é apenas uma exigência moral, mas o testemunho visível da reconciliação de Deus operando em cada um de nós. Porque a lei do perdão é vinculante, e não facultativa: é como um contrato firmado com o sangue de Cristo. Depende de mim ratificá-lo, derramando sobre os meus semelhantes aquilo que Deus me deu. Por isso, quando alguém perdoa o semelhante, na verdade, ele está agindo em conformidade com Deus que concede prodigamente o seu perdão ao ser humano.           

Se Pedro pergunta se só até sete vezes perdoa, Jesus enfatiza o perdão sem limite:70 vezes sete (v.22). Na verdade é uma alusão a Gn 4,24 (cântico de Lamec): “Se a vingança de Caim valia por sete, a de Lamec valerá por setenta e sete”.  Os LXX traduziram mal o texto hebraico, mudando 77 por setenta vezes sete. O perdão deve estender-se até onde chegou a dor ou o desejo de vingança. Em outras palavras, o perdão deve ser proporcional à dor que sentimos causada por nosso semelhante ou ao desejo de vingança que temos contra quem nos fez mal. Este é o perdão de coração como diz o Evangelho de hoje. Só é capaz de agir assim quem tem o coração repleto da misericórdia de Deus. Pois o modelo inspirador da ação cristã é a misericórdia.        

A parábola do devedor implacável serve de conclusão do perdão sem limite de Deus para quem peca ou para todos nós, pecadores. O interesse de Jesus em contar esta parábola é destacar um fato: a enorme distância que existe entre o coração de Deus e o coração humano. Na parábola tudo parece desproporcional. A dívida do empregado nesta parábola é a de dez mil talentos (= cem milhões de denários). Cem mil era o maior número com que se contava, e o talento era a maior unidade monetária em todo Oriente Médio. Este número (dez mil talentos), na época de Jesus, correspondia a duzentos mil anos de trabalho de um operário; operário nenhum no mundo jamais teve tanto dinheiro. Este número tem a finalidade de mostrar a imensidão da misericórdia de Deus. Porque para Deus não há pecado algum que Ele não perdoe e não há pecado algum maior do que o Seu amor. E Deus quer os seus filhos(as) perdoem como ele sempre os perdoe.         

Em contraste com a bondade inesgotável de Deus, há ao invés, a mesquinhez do coração do homem, que não sabe perdoar as menores ofensas. Isto se mostra através da crueldade do devedor perdoado para com seu semelhante. Ele não quer saber do seu semelhante que tem apenas pequena dívida e manda prendê-lo até que pague essa pequena dívida. Isto quer dizer que ele foi embora feliz sem nenhuma transformação no seu coração. Ao saber da crueldade desse empregado miserável, na sua indignação o rei manda prendê-lo para ser torturado até que pague toda a sua dívida(v.34).          

Jesus conclui a parábola dizendo: “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão(v.35 cf. Mt 6,15). Muitas pessoas não percebem que, cada vez que insistem em não perdoar, em guardar ira, ódio e rancor no coração, estão indo para o túmulo mais cedo. “O ódio é uma coisa morta. Quem de vocês quer ser uma tumba?”(Kahlil Gibran). Se não somos capazes de perdoar, tampouco podemos receber o perdão de Deus, pois o perdão recebido é o perdão dado. A vida cristã é exatemente o círculo do perdão recebido e dado. Não receber o perdão de Deus significa ficar fora da salvação. Além disso, se não perdoarmos como Deus nos perdoou, estamos deixando que a amargura, o ódio, rancor e raiva se instalem em nós de maneira a envenenar nossa vida e esses sentiment os podem destruir nossa vida, uma comunidade inteira e uma família toda.          

O ensinamento da parábola, portanto, é claro: os cristãos são filhos de Deus, por isso devem ter um coração grande como o de Deus. Porque quando o amor é grande qualquer defeito torna-se menor, já que o amor tudo pode. Mas os erros são grandes quando o amor é pequeno.          

Por isso, perdoar não é uma atitude para gente fraca. A vingança é que o prazer do ofendido e o ódio rancoroso é o único refúgio do mais fraco. Quando se odeia alguém, o que se quer, no fundo, é que ele sofra e até se fica satisfeito com seus sofrimentos. O difícil, o que demonstra fortaleza, magnanimidade de espírito, maturidade humana e cristã não é vingar-se, mas perdoar e romper a espiral da violência pelo amor sincero e reconciliador. Por isso, uma das experiências mais sublimes é a experiência de perdoar e ser perdoado.          

A falta da compaixão para com o semelhante, a dificuldade de perdoar o semelhante nos revela a nós mesmos que existe em nós um instinto de perversidade e nos faz descobrir um eu hostil, atraído pelo mal. Isto quer dizer que existe violência em nosso coração e seria ingênuo e perigoso negá-lo. Perdoar, neste sentido, significa abandonar os desejos sutis de vingança, é renunciar a fazer justiça em causa própria.          

Quem perdoa e é perdoado hoje, sempre tem possibilidade de voltar a pecar amanha, porque nossa fidelidade a Deus pode não ser definitiva. No entanto, sempre que nos convertermos e voltarmos arrependidos, encontraremos um Pai bondoso e misericordioso para nos acolher e perdoar. A simples consciência da imensidade do perdão recebido de Deus deveria ser suficiente para motivar cada um de nós a perdoar. Ao contrário, a insensibilidade em relação ao dom recebido de Deus torna impossível a concessão de perdão ao semelhante.       

Um homem escreveu: “Quereis ser feliz por um instante? Vingai-vos! Quereis ser feliz para sempre? Perdoai!” (Henri Ladordaire).          

Será que somos felizes para sempre? Ou será que tem ainda alguém que ainda não perdoamos? Se for assim, vamos ouvir novamente o que disse Jesus no Sermão da Montanha: “...se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta” (Mt 5,23-24).         

Vamos refletir um pouco sobre as palavras de J. F. Kennedy: “Perdoe seus inimigos, mas não esqueça seus nomes”. É isto que se chama perdão? Ao perdoar, não nos esquecemos; lembramos de maneira diferente. Apagar parte de nossa memória é apagar parte de nossa identidade como pessoas. Lembramo-nos agora de uma maneira que não transmite rancor nem ressentimento pelo que foi feito. Lembramo-nos agora a partir da perspectiva de Deus, por assim dizer, por causa da graça da reconciliação. A lembrança agora é construtiva. O perdão torna-se, assim, o caminho de libertação. O passado não é capaz mais de nos prender, pois a nossa lembrança se torna construtiva.

Deixemos hoje as seguintes interrogações que podem complementar a interrogação de Pedro:

1). Eu em relação aos outros no perdão:

Quantas vezes eu tenho que perdoar os outros? O que é que eu tenho que perdoar nos outros? Eu devo colocar o limite para o perdão que eu devo dar aos outros?

2). Os outros em relação a mim no perdão:

Quantas vezes os outros devem me perdoar? O que devem me perdoar? Os outros devem colocar o limite para o perdão que eles devem me dar?

Para ser memorizado: “Perdoa a injustiça cometida por teu próximo; assim, quando orares, teus pecados serão perdoados. Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura? Se não tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir perdão dos seus pecados? Se ele, que é um mortal, guarda rancor, quem é que vai alcançar perdão para os seus pecados?(Eclo 28,2-5). Perdoar é também um dos meios para curar nossos males.

"Pai, perdoa-lhes, porque eles nao sabem o que fazem" (Lc 23,34). O perdão de Jesus é humanizador porque busca, acima de tudo, o bem do homem, fazê-lo compreender que Deus o ama e o apoia, que está e estará com ele, que nao caminha sozinho na vida (cf. Mt 28,20).

P. Vitus Gustama,svd

Bem-Aventurada Virgem Maria Das Dores, 15/09/2026

BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA DAS DORES   15 de Setembro I Leitura: Hb 5,7-9   7 Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces ...