quinta-feira, 11 de junho de 2026

XI Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 14/06/2026

SOMOS CHAMADOS A SER MISSIONÁRIOS COMPASSIVOS

XI DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”

Primeira Leitura: Êx 19,2-6a

Naqueles dias, os israelitas, 2 partindo de Rafidim, chegaram ao deserto do Sinai, onde acamparam. Israel armou aí suas tendas, defronte da montanha. 3 Moisés, então, subiu ao encontro de Deus. O Senhor chamou-o do alto da montanha, e disse: “Assim deverás falar à casa de Jacó e anunciar aos filhos de Israel: 4 Vistes o que fiz aos egípcios, e como vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim. 5 Portanto, se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos, porque minha é toda a terra. 6ª E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”.

Segunda Leitura: Rm 5,6-11

Irmãos: 6 Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado. 7 Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. 8 Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. 9 Muito mais agora, que já estamos justificados pelo sangue de Cristo, seremos salvos da ira por ele. 10 Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho; quanto mais agora, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida! 11 Ainda mais: Nós nos gloriamos em Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. É por ele que, já desde o tempo presente, recebemos a reconciliação.

Evangelho: Mt 9,35-10,8

Naquele tempo, 36 vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: 37” A Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38 Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!” 10,1 Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade. 2 Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu Irmão João; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus. 5 Jesus enviou estes Doze, com as seguintes recomendações: “Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! 6 Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! 7 Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. 8 Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!”

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Neste Domingo o Evangelho fala da vocação e da missão dos Doze. Jesus olha para a multidão de uma maneira muito especial, cuidando  da realidade deles. Ele se compadece dessa multidão “porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”. E Ele dá resposta à situação com a oração comum, com a eleição dos Doze e sua missão ao povo.  Tudo é gratuitamente!

O evangelho nos mostra a compaixão que o Senhor tem por cada um de nós. Jesus não está interessado em pessoas em massa, mas em cada homem em particular. Ele se interessa por você. Ele conhece seu rosto, seu nome, sua história. Ele quer estabelecer um relacionamento com você. Você existe para Ele com seus problemas, suas dificuldades, suas exigências, suas esperanças. O único requisito para trabalhar em sua colheita/messe é abnegação, gratuidade; fugir dos êxitos, aplausos, honras, e privilégios. Escutemos as leituras que nos convidam a semearmos com paciência em tantos sulcos abertos que esperam a compaixão de cada um de nós e a compaixão de Cristo.

Do Evangelho aprendemos que devemos olhar para as pessoas como Jesus olha para a multidão, cuidando de sua situação e compadecendo-se, ou seja, entrando em sua pele para sentir o que elas sentem. É a campaixão! É sentir juntos para juntor procurarmos solução. Temos, ao mesmo tempo, uma missão de ajudar o outro a ter o olhar de Jesus sobre a realidade das pessoas, do povo. Jesus olha para as pessoas com amor. O que tem em cada coração fica transparente no seu olhar. De que maneira você olha para as pessoas e logo se saberá o que tem no seu coração. O olhar de Jesus é compacissvo, pois no seu coração somente tem amor.

O Livro do Êxodo, na Primeira Leitura (Êx 19,2-6ª) nos prepara para escutar o Evangelho com a recordação da Aliança que o Senhor estabelece com o povo eleito: o Senhor escolhe o povo como proprietário seu e atua em seu favor: “Sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos, porque minha é toda a terra. E vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”. E o reconhecemos com o Salmo Responsorial (Sl 99): “Nós somos o povo e o rebanho do Senhor”. É sempre bom manter nossa consciência de que pertencemos ao Senhor. Somos o povo de Deus.

Através da Primeira Leitura, vemos como a mão de Deus está sempre por trás de nossos acontecimentos decisivos. É por isso que temos que reconhecer que tudo o que somos e temos devemos a Ele. Quantas dificuldades superamos em nossas vidas! Parece-nos quase impossível chegar até aqui; é toda a graça de Deus. O olhar misericordioso de Deus sempre nos acompanha como enfatiza o Evangelho. É preciso dirigirmos nosso olhar para Deus para agradecer e para pedir mais inspirações para nossas dificuldades de cada dia.

E finalmente, a Segunda Leitura (Rm 5,6-11), tirada da Carta de são Paulo aos Romanos, recorda o núcleo de nossa fé: fomos reconciliados com Deus pela morte de Jesus Cristo, e também seremos salvos graças à sua vida. A cruz de Jesus é o preço de nossa vida diante de Deus. Somos tão valiosos no olhar amoroso e misericordioso de Deus.

A segunda leitura, então, nos convida a tomarmos consciência de que Cristo morreu por nós sendo pecadores. Ai está a grandeza de seu amor: ele não morreu por nossos pecados, mas apesar deles. Seu sacrifício foi uma oferta generosa e gratuita. Seu amor se elevou acima de nossas rejeições.

Estendamos um pouco mais nossa meditação sobre o Evangelho proclamado neste domingo!

A seção de Mt 9,35-11,1, onde se encontra o nosso texto deste domingo (como também de alguns próximos domingos), é chamada o Discurso de Jesus sobre a missão da Igreja. Notemos que a missão em Mt não se limita apenas aos doze, mas para todos aqueles que queriam seguir a Jesus. Por isso, no discurso sobre a missão na versão de Mt não se fala nem da partida dos doze (Mc 6,12-13; Lc 9,6) nem de seu regresso (Mc 6,30; Lc 9,10). Podemos dizer que este discurso serve como um tipo de “manual” para os seguidores de Jesus na tarefa de exercer a missão como cristãos, seguidores de Jesus Cristo.

O evangelista Mateus reúne no Sermão da Missão tudo o que os outros sinóticos dizem a respeito da identidade dos discípulos e da sua vocação. Vocação e missão andam inseparáveis: a minha “Vocação” de filho (de Deus) se realiza na “Missão com os irmãos.         

Neste discurso encontram-se uma introdução (9,35-38); o tema da missão (10,1-16); as perseguições na missão (10,17-25); a coragem requerida dos missionários frente as perseguições (10,26-33); as exigências radicais que se pedem dos missionários (10,34-39); e termina com uma conclusão(11,1).

Missão Baseada Sobre Compaixão e Oração   

Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos” é a introdução do discurso sobre a missão.    

No Antigo e no Novo Testamento encontra-se a descrição de Deus e de Jesus Cristo como sensíveis às dores, crises e sofrimentos do povo. Deus não fica alheio dos sofrimentos do povo (cf. Ex 3,7-14). A alta sensibilidade leva Deus a ver, a ouvir, a conhecer e a descer para libertar o povo. E Jesus, por sua vez, ao olhar para a multidão desamparada, enche-se de compaixão o interior de Jesus moveu-se em direção a cada uma das pessoas que estavam na multidão. Exatamente, na miséria se vive a misericórdia, o grande dom de Deus que é o próprio Deus.      

Nesta introdução fala-se, por um lado da reprovação dos líderes do povo: “As multidões estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”. 

A tarefa do pastor é levar o rebanho para o bom pasto para dele se alimentar, e dele cuidar. O profeta Ezequiel acusava, em nome de Deus, os pastores oficiais de Israel, os príncipes e magistrados que não apascentavam o rebanho, mas a si mesmos (Ez 34,2). Por causa disso, no futuro, o próprio Deus vai exercer o ministério pastoral (Ez 34,11ss). O próprio Deus veio em Jesus como o Bom Pastor que veio para o rebanho ter vida em abundância (Jo 10,10). E para os que são encarregados de ser pastores ou líderes do rebanho, Jesus deixou a seguinte ordem: “Apascenta as minhas ovelhas!” (Jo 21,15-17). “Apascentar” significa guiar, conduzir, alimentar, reger, governar, conduzir ao pasto, vigiar no pasto, pastorear. É cuidar do rebanho do Senhor (minhas ovelhas). 

Por outro lado, na introdução do discurso sobre a missão, fala-se também da compaixão de Jesus pela multidão cansada e abatida como rebanho sem pastor: Jesus ”ao ver a multidão teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor”(v.36).

Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”. O verbo “Compadecer-se” se usava no judaísmo somente ao falar de Deus; e no NT, somente de Jesus. Compaixão é o amor entranhado de Deus pelos homens, manifestado em Jesus. A compaixão é a característica divina. A compaixão não conhece marginalização alguma, pois o reinado de Deus não exclui ninguém da salvação. Compaixão é sentir com outrem, achegar-se ao seu lugar, assumir-lhe a experiência e a dor. A compaixão atinge o próprio centro da pessoa, nas próprias vísceras. Assim se comporta Deus, segundo AT (cf. Is 63,15; Jr 31,20). A compaixão é comover-se até as entranhas, solidarizar-se profundamente, sentir a partir de outrem, é sofrer- com. A compaixão requer que eu esteja com as pessoas que sofrem, e disposto a partilhar meu tempo e meu coração com eles. Quando eu compartilhar meu coração com uma pessoa que sofre, uma parte dela não será tocada pelo sofrimento. O meu coração partilhado alivia a dor do outro. Assim é que vivia Jesus e é assim também que os seus seguidores devem viver. 

Na Bíblia, a compaixão (hebraico, rahamim) significa um amor uterino (rehém quer dizer útero). É a qualidade materna do amor de Deus. O nosso mal move as vísceras do Senhor (splánchna, grego) a ponto de com-sofrer e de sofrer-com o nosso próprio mal. O amor de Deus pelo povo é como uma mãe que olha e ama seu bebê que está no seu útero. Desta maneira é que Jesus olha e sente pela multidão. A vinda de Jesus ao mundo decorre da compaixão de Deus pela humanidade. Sua missão consiste em manifestar esta misericórdia, por meio dos gestos concretos. A compaixão é a marca da vida de Jesus. Por onde passa, o olhar de Jesus recai sobre os doentes e sofredores, as vítimas da marginalização e dos preconceitos e assim por diante. 

A compaixão é o motivo pelo qual Jesus pensa na necessidade da missão feita por seus discípulos. Os discípulos são enviados como missionários da compaixão. A alma da missão é o amor compassivo. O próprio Jesus deseja que seus discípulos desempenhem o papel como pastores verdadeiros e compassivos do seu povo no seu lugar e conforme a sua maneira de apascentar o povo (missão movida pela compaixão). A raiz da missão é, certamente, a compaixão que significa sofrer junto, sentir em si mesmo as dores e os problemas do povo, significa compartilhar e tornar próprios os sofrimentos e os anseios dos outros, significa solidarizar-se. Consequentemente, esforçar-se em encontrar algumas soluções concretas.

Jesus olha a multidão com compaixão. O olhar de Jesus nos convida a ter um olhar contemplativo e compassivo. Olhar contemplativo e compassivo sobre as pessoas e a realidade é uma certa ternura que faz ver além das aparências e evitar a indiferença. É colocar-se no lugar de quem sofre. Esse olhar move alguém a fazer algo, e não apenas olhar. Foi por causa do povo abandonado que os discípulos foram chamados e enviados. Nenhum deles foi chamado por outro motivo. Era uma resposta às necessidades dos filhos e filhas de Deus e não em função da necessidade dos enviados.          

Jesus afirma que a missão dos discípulos de levar a Boa Notícia aos outros e de apascentar fiéis na sua comunidade, também faz parte do acontecimento escatológico. Por essa razão Mt coloca a parte apocalíptica do discurso de Mc no seu discurso. Jesus sabe do tamanho da dificuldade dessa missão: por um lado, há poucos trabalhadores (v.37. Este versículo reflete a situação da comunidade de Mateus em que poucas pessoas têm interesse em ingressar no trabalho da missão. Mt admite que poucas pessoas se dedicaram à obra iniciada por Jesus. “Poucas” foram enviadas e continuava grande a necessidade de ajuda além das fronteiras da comunidade mateana. E nossa comunidade, também tem o mesmo problema?), e por outro lado, Jesus não oferece uma solução mágica ou através de milagre. Já que a missão faz parte do acontecimento escatológico, a solução desse problema, então, está nas mãos do Pai, dono da messe. O que os discípulos podem fazer é pedir ao Pai na oração para que mande mais trabalhadores para missão (v.38). 

A Vida De Jesus É Nossa Vida e Sua Missão É Nossa Missão 

A Messe (a colheita) é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!”, disse o Senhor para seus discípulos. 

O juízo final é visto como a colheita ou a messe (Mt 3,12; 13,30.39). quem salva a colheita (a messe) é o próprio agricultor. O julgamento de Deus é nossa salvação, mas também a d´Ele, pois Ele não pode aceitar que os seus filhos estejam perdidos ou sem salvação. O pecado é lugar de perder-se, a perdição da salvação. Missão é semear e colher. Quem semeia se encontra como quem acolhe (Jo 4,35-38), quem semeia misericórdia, obtém misericórdia (Mt 5,7). 

Nesta visão, a oração em si se torna missionária e escatológica. A oração deve fazer parte da missão, e não apenas se preocupar em procurar técnicas ou métodos para atrair mais pessoas para uma missão ou para a Igreja/comunidade. Aquele que é encarregado para liderar o rebanho tem que fazer seu trabalho dentro do espirito de oração, isto é, incluir Deus indispensavelmente no seu trabalho de pastor ou de líder. Um líder, um coordenador, um pastor que não reza não é digno de depositar confiança nele, pois ele vai fazer tudo em nome do próprio interesse e não em nome da salvação do rebanho do qual ele próprio faz parte. 

Através desta última exortação, Mt convida a sua comunidade e a nossa a contemplar a missão a partir da perspectiva e dos critérios de Deus, e a orar antes de empreender a tarefa de anunciar o evangelho. Isto quer nos dizer que a missão não depende da iniciativa autônoma dos homens, mas origina-se da vontade soberana de Deus. O que os homens podem fazer é rezar sempre para o Dono da messe mandar mais missionários. 

Jesus Nos Chama Pelo Nome Para Sermos Seus Apóstolos          

Até este momento, Mt somente há nomeado cinco discípulos de Jesus: Pedro e seu irmão André (Mt 4,18), Tiago e seu irmão João (Mt 4,21), e Mateus (Mt 9,9). Agora o grupo se completa até chegar ao número simbólico de doze. Estes doze discípulos representam doze tribos de Israel, e serão as colunas do novo povo de Deus, simbolizando a unidade e a totalidade do povo eleito. Pedro encabeça a lista e Judas Iscariotes a encerra. Ambos terão um protagonismo especial no relato da paixão (Mt 26-27). E Pedro aparecerá mais com um papel especial em outros lugares do evangelho (Mt 14,28-31;16,16-19;17,24-27).           

A lista dos escolhidos indica o caráter pessoal da vocação e da missão dos discípulos. Dificilmente encontramos os critérios adotados por Jesus na escolha dos Doze. Mas sabemos através da personalidade ou profissão dos Doze de que eles não eram pessoas de caráter excelente e firmes na fé, nem dotados de alto conhecimento teológico, tampouco provindos da classe alta da sociedade. Ao contrário, eles eram incultos, pescadores. Judas traiu e Pedro negou Jesus. Basta verificar a história da salvação. Ao longo dela, Deus serviu-se de meios precários para realizar seu plano. O próprio Deus continua sendo o próprio protagonista da missão. Somos apenas enviados. A missão é de Deus. Apesar da fragilidade dos escolhidos, eles foram instrumentos válidos nas mãos de Deus, pois era ele, como continua sendo quem realizava e continua realizando a salvação.          

Por isso, ao ver a lista dos escolhidos, não podemos mais ter nem criar desculpas diante da chamada de Deus. Como dizia São João Crisóstomo: “Não há nada mais frio que um cristão despreocupado da salvação alheia. Não podes aduzir como pretexto a tua pobreza econômica. Acusar-te-á a velhinha que deu as suas moedas no Templo. O próprio Pedro dirá mais tarde: ‘Não tenho ouro nem prata’ (At 3,6). E Paulo era tão pobre que muitas vezes passava fome e não tinha o necessário para viver. Não podes pretextar a tua origem humilde: eles também eram pessoas humildes, de condição modesta. Nem a ignorância te servirá de desculpa: todos eles eram homens sem letras. Sejas escravos ou fugitivo, podes cumprir o que depende de ti. ...Não invoques a doença como pretexto, pois Timóteo estava submetido a frequentes indisposições...Cada um pode ser útil ao seu próximo, se quiser fazer o que está ao seu alcance” (Homilia 20 sobre os Atos dos Apóstolos). 

E em relação ao grande tamanho da missão enquanto há poucos trabalhadores, São Gregório Magno comenta: “A messe é muita, mas os operários poucos...Ao escutarmos isto, não podemos deixar de sentir uma grande tristeza, porque é preciso reconhecer que há pessoas que desejam escutar coisas boas; falta, no entanto, quem se dedique a anunciá-la”.          

A lista dos doze está aí. Verifique, se nesta lista você encontrou seu nome. Se não, então, você precisa acrescentar seu nome para aumentá-la. Você está disposto a colocar seu nome nesta lista?

Todos Nós Somos Enviados Para Libertar Os Irmãos De Qualquer Tipo de Escravidão          

Os doze discípulos são chamados agora de os Doze Apóstolos ou enviados. Somente neste capítulo, Jesus usa o termo “Apóstolo”. Isso quer nos dizer que a missão é própria de todo discípulo de Jesus e que todos os seguidores de Cristo são chamados à missão. 

A missão que devemos levar adiante é esta: Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!” 

Ao chamar os Doze, Jesus lhes dá poder sobre os espíritos maus e sobre todo tipo de doença e enfermidade (10,1). A autoridade/poder que Jesus dá aos Doze não é qualquer autoridade e sim uma autoridade totalmente para o ministério apostólico: libertar e curar. É uma autoridade completamente missionária. Aqui, neste capítulo, não se fala do poder de presidir/dirigir ou governar.  Jesus capacita os discípulos para vencer a resistência à mensagem oposta pelas ideologias que dominam os homens, e a tudo que vai contra o projeto de Deus (cf. Mt 8,14-15). Os discípulos são chamados a lutar contra tudo aquilo que destrói a vida do homem, quer a física, quer a espiritual; contra aqueles sistemas sociais que reduzem o ser humano a instrumento de produção, sem receber a parte que lhe é devida, que negam a liberdade de falar a verdade.

Na hora de enfrentar qualquer dificuldade, o discípulo deve estar consciente de que ele já recebeu de Jesus a capacidade para superá-la (cf. Mt 28,18-19). Não cabe ao discípulo desistir diante de qualquer espécie de problema (cf. Mt 10,22). A maior derrota é desistir antes de lutar, enquanto em si tem capacidade suficiente para vencer.

A tarefa dada se concretiza em algumas instruções básicas para a missão. A primeira instrução de Jesus é “Não tomeis o caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos” (v.5). Podemos ter duas interpretações deste versículo. Primeiro, ele reflete uma tensão viva na comunidade de Mt onde certos grupos de origem judaica não compreendiam nem aceitavam a missão aos pagãos. Segundo, na cultura de Jesus, a palavra “estrada/caminho” significa caminho ou modo de viver. Jesus pode ter querido dizer que não sigam o modo de viver dos pagãos que são idólatras.          

A segunda instrução, “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (v.6).  Em Mt encontramos duas etapas da missão. Na primeira etapa (Mt 10), a missão de Jesus e de seus discípulos é limitada para as “ovelhas perdidas de Israel”. Aqui não se fala da seleção entre os melhores, mas trata-se de gente necessitada. Para as pessoas necessitadas de Israel foram enviados os Doze. Na segunda etapa (Mt 28,19), o mandato missionário será para espalhar a Boa Nova a todos os povos. Mais tarde, então, a missão se abrirá a todos.          

Estas duas etapas da missão nos trazem uma lição muito importante para nossa comunidade: somos chamados a cuidar tanto dos de dentro da comunidade (missão ad intra), como dos de fora (missão ad extra). Na linguagem popular podemos dizer que vamos arrumar primeiro nossa casa. Vamos cuidar de nossa casa para depois cuidar das casas fora de nossa casa. Quem somente olha para a casa dos outros é porque não cuida da própria casa. A Igreja ou comunidade sem caridade interna, não tem força para dar testemunho. O testemunho interno de comunhão é o primeiro passo para um anúncio mais eloquente para fora dela.

Mas o cuidado com os de dentro não pode ser uma desculpa para ignorar os de fora. Ou, o cuidado com os de fora não justifica a falta de tempo ou atenção para com os de dentro. Temos, muitas vezes, mais facilidade de sorrir para os de fora do que para os de dentro.          

Terceira instrução: Os Doze são enviados para anunciar a proximidade do Reino de Deus. E mensagem do Reino de Deus é a de libertação: curar os enfermos, ressuscitar os mortos, sarar os leprosos, expulsar os demônios (vv. 7-8). Em outras palavras, anunciar o Reino de Deus significa instaurar a vida ali onde há carência dela ou está sendo ameaçada; onde há marginalização e onde há a dominação do espírito da injustiça e da desunião. O sinal da chegada do Reino é a libertação do povo de todo tipo de escravidão e dominação.          

Quarta instrução: Segundo Jesus, essa missão deve ser feita na gratuidade: “De graça recebestes, de graça daí” (v.8b). Se fosse com fins lucrativos, com certeza, muitos empresários teria interesse em exercê-la. Mas pelo fato de ter que fazê-la gratuitamente, poucas pessoas se interessam nesse trabalho. Para os que têm disposição para exercer a tarefa de evangelização, devem realizá-la na pobreza, sem intenção de lucro nem para proveito próprio. Trata-se de dar grátis o que foi recebido gratuitamente de Deus. Essa não é só uma proibição de fazer da evangelização uma fonte de lucro. É principalmente um alerta para que ninguém se engrandeça, se julgue superior, se envaideça quando se realiza algo de bom. Quando não envolve dinheiro, normalmente, as cobranças são outras: reconhecimento, prestígio, cargos, privilégios, e muitas vezes, competições entre grupos. Tudo isso não combina com o espírito de serviço que Jesus exige. Se alguém estiver consciente de que tudo nesta vida é graça de Deus, sem dúvida, é movido para fazer algo pelo bem dos outros, seguindo seguinte conselho de um sábio: “Se você fizer um benefício, nunca se lembre dele; se receber um, nunca se esqueça dele”. 

A Igreja, isto é, cada batizado, existe no mundo como um sinal eficaz da graça de Deus. Isto significa que a Igreja, cada batizado é projetado para os homens como uma presença salvadora na comunhão plena com o próprio Salvador do mundo, Jesus Cristo. A Igreja não está adotada de umas prerrogativas que a fazem firme e sim que tem umas promessas de assistência divina até o fim dos tempos de que a salvação possa chegar a todos os homens da história: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20). 

Ser seguidor de Cristo nos constitui em missionários. De que maneira? Simplesmente fazer caso da chamada de Deus, sentir-se responsáveis do desígnio de Deus, ser misericordioso e diligente, lutar contra o mal, animar os demais, viver desprendido, viver na gratuidade.

Portanto, o evangelho de hoje que fala da missão não pode deixar ao lado sem ressonância para cada cristão batizado. Cada um deve autocriticar sobre o sentido missionário de sua existência cristã e buscar meios adequados que ajudem o sentido apostólico em seus diversos graus de compromisso. Assim seja!

P. Vitus Gustama,SVD

Imaculado Coração Da Bem-aventurada Virgem Maria, 13/06/2026

IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

Primeira Leitura: Is 61,9-11

9 A descendência do meu povo será conhecida entre as nações, e seus filhos se fixarão no meio dos povos; quem os vir há de reconhecê-los como descendentes abençoados por Deus. 10 Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como um noivo com sua coroa, ou uma noiva com suas joias. 11 Assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Senhor Deus fará germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações.

Evangelho: Lc 2,41-51      

41 Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa. 42 Quando ele completou doze anos, subiram para a festa, como de costume. 43 Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem. 44 Pensando que ele estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois começaram a pro­curá-lo entre os parentes e conhecidos. 45 Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura. 46 Três dias depois, o encontraram no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas. 47 Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados com sua inteligência e suas respostas. 48 Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”. 49 Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” 50 Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera. 51 Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas.

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Neste dia celebramos a memória obrigatória do Imaculado Coração de Maria, logo depois da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus: Mãe e Filho são inseparáveis.

A devoção ao coração de Maria foi propagada por São João Eudes no século XVII (remonta a 1643), devoto aos Corações de Jesus e Maria. Em 1944, Pio XII consagrou toda a humanidade ao coração de Maria, e fixou a celebração de sua festa no dia 22 de Agosto, oitava da Assunção, no intuito de pedir a paz. Esta festa é colocada no dia imediato à solenidade do Sagrado Coração de Jesus para voltar à origem histórica desta devoção. No século XVII, São João Eudes, em seus escritos, não separava os dois corações nos projetos litúrgicos. Esta celebração convida o povo a meditar no mistério de Cristo e da Virgem Maria em sua interioridade e profundidade. Maria conserva as palavras e os fatos do Senhor, meditando-os em seu coração (Lc 2,19); ela é morada do Espírito Santo, sede da sabedoria, imagem e modelo da Igreja que ouve e testemunha a mensagem do Senhor.

O coração de Jesus e o coração de Maria são inseparáveis. Falar do coração, e ainda mais falar do coração de uma mulher bendita (Maria) é situar-nos em um campo de esperança. A linguagem popular diz: “tem um coração de ouro”, “é de todo coração”. Coração significa intimidade, vida interior, o motor e a raiz da pessoa. Na Bíblia, coração é igual à própria pessoa. O Coração da Virgem Maria é representado com dois símbolos: a espada da dor e do martírio e as chamas do amor e da ternura.

O que é que entendemos quando falamos do Coração de Maria? Ao falar do Coração de Maria entendemos, em primeiro lugar, seu Coração físico, o que batia em seu peito durante sua vida mortal e agora no céu. Em segundo lugar, O conjunto de afetos, qualidades e virtudes que constituem “sua vida interior”. É sua pessoa mesma, considerada em seu mais nobre aspecto: o amor a Deus e à humanidade, pois ela aceito o convite de Deus para ser Mãe do Salvador da humanidade.

Em todos os tempos, na linguagem usual, a palavra “coração” é tomada como símbolo da vida interior do homem e da sua vida afetiva. A Sagrada Escritura geralmente dá ao termo “coração” este caráter simbólico. Deste modo, através do Coração físico de Maria veneramos sua vida interior e sua própria pessoa pela suprema razão da sua dignidade imensa de Mãe de Deus.

A maternidade divina de Maria é a raiz e a causa de todas as graças que adornam seu Coração. Escreveu Papa Pio XII na Carta Enciclica Fulgens Corona de 1953: “Como a santíssima Virgem é saudada com as palavras ‘cheia de graça’ (Lc 1, 28) – isto é kekaritoméne e ‘bendita entre todas as mulheres’, claramente se manifesta com essas palavras, como aliás sempre a tradição católica entendeu, que, com essa singular e solene saudação, nunca até então ouvida, se quer significar que a Mãe de Deus foi a sede de todas as graças divinas, e ornada com todos os carismas do Espírito Santo, e, mais ainda, com o tesouro quase infinito e inexaurível abismo deles, de tal forma que nunca esteve sujeita à maldição” (n.8). Graças tão excepcionais que Santo Tomás de Aquino afirma que, por ser Mãe de Deus, a Santíssima Virgem tem certa dignidade infinita.

E esta excelsa ou sublime maternidade, que coloca Maria acima de todas as criaturas, foi realizada em seu Imaculado Coração, antes que em suas puríssimas entranhas "Ao Verbo que deu à luz segundo a carne, O concebeu, primeiramente, segundo a fé no seu Coração", afirmam os Santos Padres. Através da fé e do amor, através da pureza, submissão e humildade do seu Coração, Maria merecia levar em seu ventre o Filho de Deus.

Se todo coração de mãe já é uma admirável cristalização do amor de Deus, que será o Coração de Maria destinado à mais augusta maternidade? Todos os adjetivos ficam aquém quando se trata de definir o Coração de Maria. Depois de ter dito que ele é imaculado, bondoso, santo, muito humilde, cheio de caridade, muito misericordioso, temos a impressão de não ter dito nada.

As leituras da missa (textos bíblicos)  destacam, acima de tudo do coração de Maria, a primeira discípula do Senhor Jesus Cristo. Maria é apresentada como uma Mulher que está inclinada, no íntimo do seu coração, à escuta e ao aprofundamento da Palavra de Deus (veja o canto ao evangelho). Maria tem a amorosa atenção ao que vê e escuta e aos acontecimentos divinos em que se acha envolvida. Maria escutava e meditava no seu coração a Palavra de Deus, que era para ela como que um pão que a nutria no íntimo. Ela também tem dupla atitude diante dos eventos e das palavras de Jesus: de um lado, ela conserva a lembrança delas e, do outro lado, ele se esforça para aprofundar a compreensão das Palavras, refletindo sobre elas em seu coração. O coração de Maria é sagrao porque guarda ou conserva o que é sagrado.

O evangelho lido neste dia nos relatou que “Três dias depois, encontraram Jesus no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas”. Muitos biblistas consideram os “três dias” como alusão aos três dias entre a Cruz e a Ressurreição. Três dias são dias de sofrimento pela ausência de Jesus; são três dias de escuridão. E o peso destes três dias se revela nas palavras da Mãe de Jesus: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura” (Lc 2,48).

Este relato nos mostra a importância da presença de Jesus e de sua palavra na nossa vida, sem os quais nossa vida se torna escura, sem sabermos para qual direção devemos caminhar. Não é por acaso que, na sua busca do terreno que não o satisfez, Santo Agostinho dizia na sua oração: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti (Confissões 1,1). Unir-se com Deus, estar em comunhão com Deus é a condição para ter paz do coração. Estar em comunhão com Jesus e Sua Palavra significa também estar envolvido no mistério de Sua Paixão e Ressurreição.

Por isso, podemos entender o significado da resposta de Jesus à Sua Mãe: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”. Aqui Jesus usa a palavra “devo” para dizer que Jesus pertence a Deus que é o seu próprio Pai e ele deve estar com o Pai. Consequentemente, Jesus não está desobedecendo a Mari e José, mas na realidade mostra sua obediência filial ao Deus Pai. Implicitamente, Jesus quer que Maria e José se mantenham no Deus Pai, obedientes à Sua vontade. Essa obediência é que vai levar Jesus para a Cruz e a Ressurreição.

Mas Lucas nos relatou que “Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera. Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. As palavras de Jesus sempre são maiores do que nossa razão, nossa inteligência. Jamais podemos entender perfeitamente o sentido profundo da Palavra de Deus. A palavra de Jesus é grande demais para Maria. É tão grande a ponto de Maria só guardá-la no seu coração: “Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. Maria, que conservava as palavras e os fatos do Senhor, meditando-os em seu coração (Lc 2,19) é a verdadeira morada do Espirito Santo, sede da sabedoria, imagem e modelo da Igreja que ouve, medita e testemunha a mensagem do Senhor Jesus Cristo. Cedo ou tarde a Palavra de Deus vai nos iluminar para captar o sentido de cada coisa, de cada acontecimento na nossa vida.     

O coração de Maria esteve sempre cheio de Deus a ponto de o anjo do Senhor chamá-la de “cheia de graça” (cf. Lc 1,28). O seu coração imaculado é chamado santuário do Espírito Santo (LG 53), como rezamos na coleta, em virtude da sua maternidade divina e da inabitação contínua e plena do Espírito divino na sua alma. O Verbo que Maria deu à luz segundo a carne foi antes concebido segundo a fé no seu coração (Santo Agostinho). Foi em vista do seu Coração Imaculado, cheio de fé e de amor humilde, juntamente à benevolência totalmente gratuita e de uma complacência absolutamente pura de Deus que Maria mereceu trazer o Filho de Deus no seu seio virginal. 

Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. Maria, que ainda não entende, é  modelo da Igreja: “Guarda através do tempo” (esse é o significado da palavra grega diatereîn), essas palavras, como uma semente que vai crescer. Depois de ter carregado o Filho no útero, agora o leva no coração e se torna realmente mãe (Lc 8,21; 11,28), com a Igreja. Essa gestão espiritual do coração forma a estrutura plena de Cristo (Ef 4,13). Maria é realmente o ideal de qualquer crente.

O coração de Maria conservava as palavras de Jesus Cristo. Por isso, podemos dizer que seu peito foi um sacrário: “Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas”. O Coração de Maria é a projeção do Evangelho para nosso século. Maria viveu o Evangelho em seu mais puro e elevado espírito na interioridade de seu coração. Ela é a verdadeira discípula de Jesus que vive por causa da Palavra de Deus: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38).       

O cristão de nossos dias, que pretende adaptar sua vida às exigências do Evangelho, tem que penetrar com o máximo respeito no sagrado Coração de Maria e ver e aprender como ela viveu as exigências da Palavra de Deus. Maria sabe guardar a Palavra de Deus no seu coração para do seu coração sair frutos que Deus quer para o bem de toda a humanidade. Ao aderir à Palavra de Deus e ao guardar a Palavra de Deus no seu coração, Maria cresce progressivamente com a Palavra, mesmo que ela não compreenda seu significado no momento como aconteceu com a resposta de Jesus no Templo aos doze anos de idade, como relatou o evangelho lido neste dia. De Maria aprendemos que o coração é feito para guardar os tesouros da vida divina, para guardar a Palavra de Deus. Não guardemos no nosso coração aquilo que nos prejudica e destrói a vida alheia. Guardemos a Palavra redentora de Deus no nosso coração, para ela possa purificar nosso coração progressivamente a fim de um dia poder se tornar um coração imaculado semelhante ao Coração imaculado de Maria.       

Do coração de Maria brotam torrentes de graças de perdão, de misericórdia, de ajuda nas situações difíceis. Por isso, queremos pedir-lhe hoje que nos dê um coração puro, humano, compreensivo com os defeitos dos que convivem conosco.

Quando se fala do coração imaculado fala-se do coração capaz de amar sem limites. Amor é capacidade de sair de si mesmo, de transferir-se para outro ser, de participar de outro ser e de entregar-se por um outro ser. Aquele que ama está totalmente no outro, conservando sua identidade. O amor não pode realizar-se na esfera de um sujeito isolado. O verdadeiro amor é sempre como uma experiência de derrota que se transforma em vitória; uma experiência de entrega que se transforma em enriquecimento; uma experiência de sair de si que se transforma no mais profundo encontro consigo mesmo; uma experiência de morte que se transforma em vida. O ponto final do amor é a vitória sobre a morte. O ponto final do egoísmo é a morte, e a ausência do amor é a ausência de Deus. “É preciso amar os homens não pela simpatia que nos inspiram nem pelas qualidades que apreciamos, mas porque Deus os ama” (Martin Luther King).

Dizer-se devoto(a) do Coração de Maria é ser homem ou mulher de coração misericordioso onde habita o amor e a ternura. Por isso, terminamos a nossa oração pedindo ao Senhor: “Ó Deus, que preparastes no Imaculado Coração de Maria uma digna morada para o vosso Filho e um santuário para o Espírito Santo, concedei-nos um coração limpo e dócil, para que, sempre submissos aos vossos preceitos, Vos amemos sobre todas as coisas e ajudemos os nossos irmãos em todas as suas necessidades”. Assim seja.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 9 de junho de 2026

Sagrado Coração De Jesus, Solenidade, Ano "A", 12/06/2026

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

SOLENIDADE

 

I Leitura: Dt 7,6-11

Moisés falou ao povo, dizendo: 6“Tu és um povo consagrado ao Senhor teu Deus. O Senhor teu Deus te escolheu dentre os povos da terra, para seres o seu povo preferido. 7O Senhor se afeiçoou a vós e vos escolheu, não por serdes mais numerosos que os outros povos – na verdade sois o menor de todos – 8mas, sim, porque o Senhor vos amou e quis cumprir o juramento que fez a vossos pais. Foi por isso que o Senhor vos fez sair com mão poderosa, e vos resgatou da casa da escravidão, das mãos do Faraó, rei do Egito. 9Saberás, pois, que o Senhor teu Deus é o único Deus, um Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações, para aqueles que o amam e observam seus mandamentos; 10mas castiga diretamente aquele que o odeia, fazendo-o perecer; e não o deixa esperar: mas dá-lhe imediatamente o castigo merecido. 11Guarda, pois, os mandamentos, as leis e os decretos que hoje te prescrevo, pondo-os em prática”.

II Leitura: 1Jo 4,7-16

7 Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. 8 Quem não ama, não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor. 9 Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele. 10 Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados. 11 Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros. 12 Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é plenamente realizado entre nós. 13 A prova de que permanecemos com ele, e ele conosco, é que ele nos deu o seu Espírito. 14 E nós vimos, e damos testemunho, que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15 Todo aquele que proclama que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece com ele, e ele com Deus. 16 E nós conhecemos o amor que Deus tem para conosco, e acreditamos nele. Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus, e Deus permanece com ele.

Evangelho: Mt 11,25-30

25Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 27Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. 30Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

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O culto litúrgico ao Sagrado Coração de Jesus começou com São João Eudes (1601-1680). A tentativa de colocar a nova devoção na liturgia encontrou grandes resistências, especialmente de natureza teológica, que perduraram nos séculos posteriores. O Papa Clemente XIII aprovou um formulário para a missa e o ofício divino em 1765. Papa Pio IX estendeu a festa para toda a Igreja em 1856. Papa Pio XI, em 1928, equiparava-a, como grau litúrgico, às solenidades do Natal e da Ascensão, dando-lhe um novo conteúdo.

E Papa Pio XII nos deu o que poderíamos chamar de “Carta Magna" de devoção e amor ao coração de Cristo em sua encíclica Haurietis Aquas: Sobre O Culto Do Sagrado Coração De Jesus, de 15 de maio de 1956. “Inumeráveis são as riquezas celestiais que nas almas dos fiéis infunde o culto tributado ao sagrado coração, purificando-os, enchendo-os de consolações sobrenaturais, e excitando-os a alcançar toda sorte de virtudes” (Haurietis Aquas n.2).

Para o Papa Pio XII o mistério do Sagrado coração de Jesus que nos redimiu é o mistério de amor divino: “O mistério da divina redenção é, antes de tudo e pela sua própria natureza, um mistério de amor: isto é, um mistério de amor justo da parte de Cristo para com seu Pai celeste, a quem o sacrifício da cruz, oferecido com coração amante e obediente, apresenta uma satisfação superabundante e infinita pelos pecados do gênero humano: Cristo, sofrendo por caridade e obediência, ofereceu a Deus alguma coisa de valor maior do que o exigia a compensação por todas as ofensas feitas a Deus pelo gênero humano. Além disso, o mistério da redenção é um mistério de amor misericordioso da augusta Trindade e do divino Redentor para com a humanidade inteira, visto que, sendo esta totalmente incapaz de oferecer a Deus uma satisfação condigna pelos seus próprios delitos mediante a imperscrutável riqueza de méritos que nos ganhou com a efusão do seu precioso sangue, Cristo pode restabelecer e aperfeiçoar aquele pacto de amizade entre Deus e os homens violado pela primeira vez no paraíso terrestre por culpa de Adão e depois, inúmeras vezes, pela infidelidade do povo escolhido” (Haurietis Aquas n.20).

O seu coração aberto precede-nos e espera-nos incondicionalmente, sem exigir qualquer pré-requisito para nos amar e oferecer a sua amizade: Ele amou-nos primeiro (cf. 1 Jo 4, 10). Graças a Jesus, «conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16).”, escreveu Papa Francisco na Carta Encíclica: Dilexit Nos (n.1).  E acrescentou: “Para exprimir o amor de Jesus Cristo, recorre-se frequentemente ao símbolo do coração” (n.2). Papa Frnacisco usou a palavra “coração” nessa Encíclica em torno de 466 vezes, e “Sagrado Coração”, em torno de 33 vezes.

Sobre o coração Papa Francisco escreveu: “O coração é igualmente o lugar da sinceridade, onde não se pode enganar ou dissimular. Costuma indicar as verdadeiras intenções, o que se pensa, se acredita e se quer realmente, os “segredos” que não se contam a ninguém, em suma, a verdade nua e crua de cada um. O que não é aparência ou mentira, mas autêntico, real, inteiramente “pessoal”. É por isso que Sansão, que não havia revelado a Dalila o segredo da sua força, foi interpelado por ela deste modo: «Como podes dizer “Amo-te”, se o teu coração não está comigo?» (Jz 16, 15). Só quando lhe revelou o seu segredo tão escondido é que ela «viu que ele lhe abrira todo o coração» [Jz 16, 18]. (Dilexit Nos, n. 5). Por isso, na nossa vida, somente duas pessoas não podem ser enganadas ou mentidas: Deus e eu. A boca pode pronunciar qualquer coisa, mas a verdade do coração segue seu próprio caminho.

Por isso, Papa Francisco nos alerta: “Compreendemos assim porque é que o livro dos Provérbios nos exorta: «Vela com todo o cuidado sobre o teu coração, porque dele jorram as fontes da vida. Preserva-te da linguagem enganosa, afasta de ti a maledicência» (Pr 4, 23-24). A mera aparência, a dissimulação e o engano danificam e pervertem o coração. Para além das muitas tentativas de mostrar ou exprimir o que não somos, é no coração que se decide tudo: ali não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos. E esta é a base de qualquer projeto sólido para a nossa vida, porque nada que valha a pena pode ser construído sem o coração. As aparências e as mentiras só trazem vazio.” (Dilexit Nos, n. 6). E Papa Francisco acrescentou: “Em vez de procurar uma satisfação superficial e de representar um papel diante dos outros, é melhor deixar que surjam perguntas decisivas: quem realmente sou? O que procuro? Que sentido quero dar à vida, às minhas escolhas e ações? Por que razão e para que fim estou neste mundo? Como vou querer avaliar a minha existência quando ela terminar? Que sentido quero dar a tudo o que vivo? Quem quero ser perante os outros? Quem sou diante de Deus? Estas perguntas conduzem-me ao meu coração.” (Dilexit Nos, n.8)

O Missal do Papa Pulo VI sublinha não só o aspecto da reparação. Mas também a alegria de celebrar no coração de Cristo as grandes obras do seu amor (coleta). E as leituras bíblicas escolhidas para a liturgia da palavra garantem os aspectos mais autênticos desta celebração e da consequente devoção ao coração de Jesus.

E a palavra chave para as três leituras (Ano A) na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, neste dia, é amor.

A Primeira Leitura (Dt 7,6-11) tirada do livro de Deuteronomia, nos conta que Israel se tornou o Povo de Deus, porque o próprio Deus o consagrou assim, introduziu-o em sua esfera e fez dele sua propriedade: “Tu és um povo consagrado ao Senhor teu Deus. O Senhor teu Deus te escolheu dentre os povos da terra, para seres o seu povo preferido”. A razão pela qual Deus escolheu Israel foi seu amor, que não busca outras razões além de si mesmo. No próprio povo de Israel não encontram as razoes desta escolha, pois não tem nenhum tipo de grandeza que o torne preferível a qualquer outro povo. Apesar de tudo, Deus fez uma promessa a seus pais e a cumpriu nos filhos, libertando-os da escravidão. Os filhos dos filhos continuam sabendo que são amados e libertados. Essa iniciativa gratuita de Deus é o que constitui a grandeza deste povo, e não qualquer princípio natural da grandeza.

O autor do Deuteronômio coloca seus compatriotas diante do mistério do amor de Deus e de sua gratuidade. A experiência da pequenez, da libertação da escravidão do Egito, do amor de Deus no Sinai, da consciência de ser um povo distinto dos demais povos e assim por diante, vão configurando a consciência de Israel. O Deuteronômio ilumina teologicamente esta consciência: Deus separou esse povo (de Israel) dos demais povos e fez dele sua propriedade pessoal. A palavra hebraica “segulá” (propriedade) designa o patrimônio privado de um rei. Israel é o patrimônio pessoal que Deus escolheu livremente. Para tão alta distinção, Israel não pode apresentar motivos, ou não encontra em Israel os motivos da escolha divina, como foi dito. Simplesmente, Israel é menor de todos os povos (Dt 7,7). Tudo é fruto do amor de Deus pelo povo eleito. Este modo de apresentar a aliança como um projeto livre e amoroso de Deus provém do profetismo do reino de Norte (Israel) e é muito claro em Oseias (profeta Oseias) e em Jeremias: “Com amor eterno te amei e por isso, a ti estendi o meu favor” (Jr 31,3). Deus ama um povo não porque é amável ou porque tem mais méritos que os outros povos. Ele o ama sem motivo, simplesmente porque é Amor (cf. 1Jo 4,8.16). Isto significa que Deus o amará também tanto na infidelidade quanto na fidelidade, tanto na infelicidade quanto na felicidade. Por isso, o Papa Pio XII escreveu: “Com todo esse amor, terníssimo, indulgente e longânime mesmo quando se indigna pelas repetidas infidelidades do povo de Israel, Deus nunca chega a repudiá-lo definitivamente; mostra-se, sim, veemente e sublime; mas, contudo, em substância isso não passa do prelúdio daquela inflamadíssima caridade que o Redentor prometido havia de mostrar a todos com o seu amantíssimo coração, e que ia ser o modelo do nosso amor e a pedra angular da nova aliança”. (Haurietis Aquas n.17).

Certamente a contemplação do amor de Deus que age desta maneira em prol da vida do povo eleito deveria incitar o povo eleito a preocupar-se em corresponder, por pouco que seja, a este amor. A observância dos mandamentos do Senhor da parte do povo eleito é uma resposta ao amor de Deus por ele: “Guarda, pois, os mandamentos, as leis e os decretos que hoje te prescrevo, pondo-os em prática” (Dt 7,11).

O tema sobre o amor encontramos também na Segunda Leitura de hoje tirada da Primeira Carta de São João. Para são João, o critério do amor de Deus em nós é nosso amor mútuo (1Jo 4,7.11). São João se apoia na concepção judaica dos dois espíritos quando fala do amor: o Espirito de Deus e o Espirito do mundo. o Espirito de Deus se manifeta na caridade (1Jo 4,7.11); o espirito do mundo se manifesta no desamor (1Jo 4,8). Aderir ao Espirito de Deus significa fazer profissão de fé explícita em Jesus, encarnação do amor de Deus (1Jo 4,10) e se concretiza no amor mútuo na vida cotidiana. Fé e amor são os critérios de nossa comunhão com Deus. Para são João, as duas virtudes (fé e amor) se interpenetram e dominam, juntas, a pessoa do cristão. Você mostra que tem a fé quando você ama o próximo, isto é, sempre quer e fazer o bem para o próximo. Toda decisão de fé implica no amor, pois ela exige uma conversão que só poder ser o dom de si.

A vida cristã tem, então, uma dimensão dupla, vertical e horizontal. A primeira nos faz tomarmos consciência de que Deus é amor (1Jo 4,16), de que nos amou tanto que nos enviou seu Filho (1Jo 4,14) e de que quer estabelecer sua morada em nós (1Jo 4,15-16). A segunda nos impele a amarmos nossos irmãos como somos amados por Deus (1Jo 4,12). Fé e amor são inseparáveis para a verdadeira vida de um cristão.

E o Evangelho deste dia nos fala que o amor de Deus é bem reconhecido e aceito pelos simples e pequeninos. Na sua oração no evangelho de hoje há três afirmações fundamentais: somente o Filho é capaz de revelar o verdadeiro rosto do Pai; a revelação do Pai se abre aos pequeninos e se fecha aos sábios; todos os que estão cansados e oprimidos podem encontrar em Cristo alívio.

Deus decidiu gratuitamente (“Eu te louvo, ó Pai”) manifestar “estas coisas” aos “pequeninos”. É uma revelação que segue esquemas insesperados: oculta estas coisas aos prudentes e aos sábios e as revela aos pequeninos. Para dar ainda mais destaque ao paradoxo, Jesus não diz simplesmente “Pai” e sim que acrescenta “Senhor do céu e da terra”. Aqui esta a maravilha: o Deus do céu e da terra tem preferência pelos humildes e pequeninos.

Mas quem são concretamente os pequenos aos quais se manifestam os segredos de Deus? Quem são os sábios e prudentes, ao contrário, para os quais se ocultam os segredos de Deus? O que se manifesta e o que se mantem oculto? Jesus se limita em dizer “estas coisas”. Mas é fácil compreender que se trata do Evangelho em sua totalidade, isto é, daquela nova compreensão de Deus e de sua vontade que se contem nas palavras e nos fatos de Jesus.

Quando Jesus falava e Mateus escrevia, a expressão “os sábios e os prudentes” designava concretamente aos elites religiosos de Israel, rabinos e fariseus, que permaneciam cegos diante da claridade das palavras de Jesus e se irritavam por sua pregação em favor dos pobres (se escandalizam dela). Por conseguinte, “pequeno” não se opõe a adulto e sim que se opõe a sábio e prudente.

Pequenos são os homens sem cultura, sem competência religiosa, sem habilidade dialética, sem facilidade de palavra. Concretamente, no tempo de Jesus, eram os chamados homens da terra, os pobres aldeanos de Galileia que os doutores da Lei e os fariseus desprezavam. Diziam eles: “Um ignorante não pode evitar o pecado e um homem de campo não pode ser de Deus”. E no contexto histórico da época de Jesus, os cansados e os oprimidos eram aqueles que puniam sob as prescrições intoleráveis ​​e complicadas prescrições da lei farisaica e se sentiam perdidos diante da doutrina sutil e difícil dos rabinos. Jesus os convidava a buscar em outra parte, a saber, no evangelho e em seu exemplo, a verdadeira vontade de Deus. E para motivar seu convite e oferecer seu exemplo Jesus se define “manso e humilde de coração”. Humilde indica a atitude de Jesus, dócil em tudo à vontade do Pai; uma docilidade interior, livre e querida (“de coração”). Manso indica a atitude de Jesus a respeito dos homens: uma atitude não violenta; misericordioso, tolerante, pronto para o perdão.

Por nossa vez, como seguidores de Jesus necessitamos nos vestir da humildade. O humilde reverencia o Sagrado, pois ele se reconhece “terra”, “pó”, mas é “pó” vivente por causa do hálito que é soprado nele pelo Criador (cf. Gn 2,7; Jo 20,22). É na humildade e da humildade que germinam nossos autênticos valores. Os simples e humildes são os que, ao se esvaziarem de si mesmos, se abrem a Cristo e aos irmãos.

Nossa Devoação Ao Sagrado Coração De Jesus

Neste dia celebramos a solenidade do Sagrado Coração de Jesus ao que temos muita devoção. Devoção, em seu sentido primário, significa dar-se a si mesmo a alguém ou a algo. No contexto da verdadeira religião, devoção significa uma atitude da vontade, serena e constante, fruto de uma decisão refletida pela qual a pessoa se entrega em todo momento ao serviço de Deus. É uma oferenda de si mesmo a Deus, dedicando-se, permanentemente, a todas aquelas atividades referentes à honra de Deus. Qualquer devoto cumpre seus deveres referentes à sua devoção conscientemente e constantemente apesar das dificuldades encontradas. A palavra latina “devotio” (devoção) indica força, vontade decidida de fazer a vontade de Deus independentemente da situação encontrada. Por isso, devoção está longe de ficar no nível de sentimento.    

O que queremos dizer ao falar do coração de Jesus ou de um coração humano?

O coração representa o ser humano em sua totalidade; é o centro original da pessoa humana, o que lhe dá unidade. O coração é o centro de nosso ser, a fonte de nossa personalidade, o motivo principal de nossas atitudes e escolhas livres, o lugar da misteriosa ação de Deus. Apesar de poderem existir o bem e o mal nas suas profundezas, o coração continua sendo símbolo de amor. Por isso, a essência mais profunda da realidade pessoal é o amor. O homem foi criado para amar e ser amado. Fora disto ele perderia a razão de ser e de viver. “Ama e faze o que tu quiseres” (Santo gostinho).

A devoção ao Coração de Jesus está totalmente de acordo com a essência do cristianismo que é religião de amor (cf. Jo 13,34-35), pois o cristianismo tem como objetivo o aumento de nosso amor a Deus e ao próximo (cf. Fl 1,9). O símbolo deste amor é o coração de Jesus que ama a todos sem medida. Jesus Cristo é a encarnação do amor de Deus por nós desde a eternidade: “Eu te amei com amor eterno, por isso conservei para ti o amor” (Jr 31,3). Em cada página dos evangelhos fala-se do amor de Jesus por nós. “Tudo o que Deus queria nos dizer de si mesmo e de seu amor, ele o depositou no coração de Jesus e o expressou através deste Coração. Através do Coração de Jesus lemos o eterno plano divino da salvação do mundo. E trata-se de um projeto de amor” (João Paulo II).     

A devoção ao Sagrado coração de Jesus quer nos chamar de volta à primordial razão de nosso ser: amar. “Quanto mais amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho). Uma pessoa com coração é uma pessoa profunda, próxima, compreensiva, capaz de ir ao fundo das coisas e dos acontecimentos. Uma pessoa com coração não é dominada pelo sentimentalismo e sim é uma pessoa que alcançou uma unidade e uma coerência, um equilíbrio e uma maturidade. Ela nunca é fria, mas cordial, nunca é cega diante da realidade, mas realista, nunca é vingativa, mas pronta para perdoar e para reconciliar-se. Um coração cristão, a exemplo do de Jesus, é um coração de dimensão universal, um coração que supera o egoísmo, um coração magnânimo capaz de abraçar a todos. A espiritualidade do coração é uma verdadeira espiritualidade, pois inclui a oração, a conversão, a escuta do Espírito, o cuidado para o próximo, a compaixão, a solidariedade e a partilha. Não é por acaso que para o homem de antiguidade ter coração equivalia a ser uma personalidade íntegra.                 

A devoção ao Sagrado Coração é devoção a Cristo mesmo. O próprio Cristo é o objeto de nossa adoração e para ele é que dirigimos nossa oração.                 

Jesus teve um amor perfeito, seu coração é para nós o perfeito emblema de amor. Seu coração foi saturado de amor perfeito ao Pai e aos homens. Seu amor é totalmente humano porque nele nos encontramos com o mistério de um amor humano-divino. O amor de Deus se encarnou no amor humano de Jesus. Por isso, Jesus nos convida: “Aprendei de mim porque sou humilde e manso de coração”. Humilde indica uma docilidade interior que se expressa na docilidade com os demais. Manso indica uma atitude valente, mas não violenta, misericordiosa, tolerante, pronto para perdão, mas também exigente.                 

O amor de Deus não é compatível com a indiferença diante do sofrimento alheio e diante da injustiça social. Mas nossas atividades, inclusive as práticas políticas e sociais devem ser animadas pelo amor cristão.                 

A contemplação do mistério de amor de Deus por nós deve nos conduzir a uma resposta múltipla. Deve suscitar em nós sentimentos de fé, amor e adoração. No contexto religioso devoção indica serviço dedicado e vontade decidida de fazer a vontade de Deus. Sugere culto não somente do tipo litúrgico, mas de nossa vida inteira. Esta devoção se realiza aceitando o convite de Jesus a tomar nossa cruz e segui-lo.                 

A comunhão sacramental não é somente participar no Corpo e no Sangue de Cristo; implica a participação na vida dos seus membros com um compromisso de amor e de serviço.                 

Viver no amor é escolher Deus, permanecer em Deus, viver em comunhão com Deus. Quando mantemos essa relação com Deus, o Espírito reside em nós e opera, por nosso intermédio, obras grandiosas em favor do homem – obras que dão testemunho do amor de Deus.               

Tornar o amor de Deus uma realidade viva no mundo significa lutar objetivamente contra tudo o que gera ódio, injustiça, opressão, mentira, sofrimento e assim por diante. Será que eu pactuo (com o meu silêncio, indiferença, cumplicidade) com os sistemas que geram injustiça, ou será que eu me esforço ativamente por destruir tudo o que é uma negação do amor de Deus? Um coração grande na vida é aquele que escolhe aquilo que eleva, e liberta-se daquilo que rebaixa a humanidade. 

A devoção ao Sagrado coração de Jesus nos faz um questionamento: que resposta dar ao Cristo que nos amou até morrer crucificado?        

Santo Agostinho dizia: “O que amamos em Cristo? Seus membros crucificados, seu lado traspassado ou sua caridade? Quando ouvimos que sofreu por nós, o que amamos nele? É seu amor que amamos. Ele nos amou para que lhe retribuíssemos amor por amor, e para que possamos lhe retribuir amor por amor, visitou-nos pelo seu Espírito” (Sermão sobre Sl 127,8).       

Não podemos fazer a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, se ainda guardamos o ódio no nosso coração, se não somos capazes de perdoar, se não nos preocupamos com a salvação de todos. Uma pessoa que tem a devoção ao Sagrado Coração de Jesus tem uma missão de levar a todos o amor de Cristo. Mas precisamos saber que ser uma pessoa amorosa é bastante diferente de ser o chamado “prestativo”. Os prestativos usam tão-somente as outras pessoas como oportunidade de praticar atos virtuosos, dos quais mantém registro cuidadoso. As pessoas que amam aprendem a mudar o foco de atenção e da preocupação de si para outras pessoas; elas se preocupam intensamente com as outras pessoas. Nosso cuidado e preocupação pelos outros devem ser autênticos, do contrário nosso amor nada significa. Não se aprende a viver sem antes aprender a amar. O amor humano quando é verdadeiro nos ajuda a saborear o amor divino. E o amor divino em nós nos faz mais compassivos, mais generosos, mais éticos e mais reconciliados; damos aquilo que recebemos, ensinamos aquilo que aprendemos. Ninguém pode viver este amor se não se forma na escola do Coração de Jesus. Somente se olharmos e contemplarmos o Coração de Cristo é que conseguiremos que o nosso coração se liberte do ódio e da indiferença. Somente assim saberemos reagir de modo cristão diante da ofensa e dos sofrimentos alheios e diante da dor humana.        

Pedimos ao Sagrado Coração de Jesus ao qual temos a devoção que nos conceda um coração bom capaz de compadecer-se para remediar os tormentos que acompanham e angustiam tantas pessoas neste mundo. O verdadeiro bálsamo é o amor, a caridade. Todos os demais consolos servem apenas para distrair um momento, e deixar mais tarde a amargura e o desespero.     

Será que as nossas comunidades, as nossas pastorais, os nossos grupos são espaços de acolhimento e de hospitalidade, oásis do amor de Deus, não só para os amigos e colegas, mas também para os pobres, os marginalizados, os sofredores que buscam em nós um sinal de amor, de ternura e de esperança?

P. Vitus Gustama,svd

XI Domingo Do Tempo Comum, Ano "A", 14/06/2026

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